Opinião: À Mesa com Portugal

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Somos o que comemos. Verdade. Mas se assim é, que dirão os nossos filhos daqui a 20 anos? Se pedem um refrigerante a uma qualquer refeição são de imediato repreendidos. Nem damos tempo para explicações, mas barramos logo o pedido.

No entanto, nem nos lembramos do açúcar que hoje se consome no pão, nos cereais, mueslis e outros preparados ditos “benditos” que os meninos comem ao pequeno-almoço com o consentimento dos pais. Insistimos para que comam fruta, mas esquecemos que muita dela não sabe a nada, pois é “criada” fora de tempo. E esquecemos que essa mesma fruta, na maioria das vezes, foi tratada para parecer bonita, eternamente jovem e apetecível. Que tomate, que alface se serve para dar verde e cor ao prato?

Os pais tão convictos do que é bom, menos bom ou mau tratam as suas opiniões como certezas no que respeita aos alimentos sem se lembrarem que, nas escolas, nem sempre se come bem. Não vale a pena repetir o que muita gente sabe. Ingredientes nem sempre da melhor qualidade. Ementas desajustadas onde o sabor é parente pobre de uma refeição que parece apenas cumprir um quadro de calorias. Bahhh!!!!! Dizem os miúdos quando falam de algumas refeições. Os pais repetem “mas tens que comer!”

As refeições nas escolas são matéria inesgotável, mas neste contexto, ocorre-me falar do exemplo brasileiro das merendeiras, mulheres que levam um outro olhar e, sobretudo, com a sua ação dão outro sabor à comida que é servida nas cantinas escolares. Criadas no âmbito do Plano Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) desenvolvido no Brasil desde 1955 para mitigar assimetrias alimentares, estes profissionais são considerados educadores alimentares. Para além de transmitirem informações sobre a composição química dos alimentos, falam de como uma alimentação saudável previne doenças e permite uma sociedade mais feliz. Mas a sua ação vai mais além e procuram a contextualização da alimentação escolar nos hábitos e tradições locais.

A alimentação é vista por estas merendeiras como um todo nutricional, agrícola, culinário, social, cultural e político. Mais do que nutrientes, os alimentos falam de sabores, de cheiros, de texturas que nos remetem para um contexto alimentar que se reconhece e promove a integração social e a preservação das tradições a par de uma alimentação saudável.

Nesta atitude está tudo. Alimentação como saúde, cultura, história, desenvolvimento agrícola, mas sobretudo elemento imprescindível para se ser feliz. Algo que esquecemos muitas vezes quando falamos de alimentação. Se não fosse para sermos felizes, porque selecionámos na natureza alguns elementos em detrimento de outros? A história da humanidade é também a história do sabor. Somos o que comemos. E somos felizes?

As merendeiras promovem a literacia alimentar ao mesmo tempo que tratam o enquadramento das refeições, das ementas, dos produtos. Fazem um serviço ao país que não se vê no imediato, mas que terá ganhos substanciais a longo prazo no que respeita à prevenção de maus hábitos alimentares ao mesmo tempo que se salvaguardam tradições gastronómicas. Talvez fosse bom seguir o exemplo, não? Afinal, não queremos ser felizes?

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