Opinião: Não gosto de pessoas sensíveis que não são capazes de matar galinhas

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Gosto de poesia,

E gosto de pessoas sensíveis,

Mas não gosto de pessoas sensíveis que “não são capazes de matar galinhas” e que, “porém, são capazes de comer galinhas”,

Não gosto de barrigudos lambuzados de galinhas que outros mataram,

E, como tal,

Não gosto mesmo nada de ver o Costa a comer as galinhas que o pobre Adalberto para ele matou, ou o contestado Castro Mendes, ou o discreto Caldeira Cabral, ou até o sonso Azeredo Lopes… todos de faca na mão e alguidar no chão, a recolherem o sangue de uma população galinácea, agonizante, a estrebuchar,

Gosto de quem diz ao que vem, sem cobardias nietzschianas,

Não gosto de troca-tintas, nem de eufemismos desnecessários,

E não gosto nada de chico-espertos que enganam o povo tolo com papas e bolo… em forma de sorrisos manhosos e promessas vãs.

Gosto de inimigos na política (porque as ideologias são imprescindíveis ao debate), sim, mas inimigos (não desavindos, nem hostis, apenas aguerridos adversários) que mereçam uma oposição séria e forte,

Gosto de políticos sérios e valentes, que se comprometam e lutem de frente, gente destemida que dê o corpo às balas que lhe são dirigidas,
Não gosto de políticos trauliteiros e oportunistas, mesmo quando lhes gabo o sentido de oportunidade,

E, como tal,

Não gosto de ouvir António Costa a apregoar um governo de esquerda, forçando o ministro da cultura a ratear subsídios que mais parecem esmolas,

Nem gosto de ouvir o Costa a anunciar um governo de esquerda, forçando o ministro da saúde a degolar o SNS e a aproveitar o sangue para um farto arroz pardo que encherá o bandulho aos compinchas do costume,

E também não gosto de ouvir o Costa a declarar um governo de esquerda, forçando o ministro da economia a fingir-se de morto, justificando-lhe a letargia com uma fatal timidez,

Nem tão-pouco gosto de ouvir o Costa a proclamar um governo de esquerda, forçando o ministro da defesa a cortar na segurança do Estado e sujeitando-o a uma figura de parvo que ficará no anedotário nacional,

Não, não gosto de um Primeiro-Ministro que aproveita a tempestade para deitar borda fora os matadores das galinhas com que se empanturrou, obrigando-os a um sacrifício que devia ser seu,

Nem gosto de um Primeiro-Ministro que mente descaradamente, sem hesitações, e garante que os demissionários saíram por sua própria iniciativa (“Senhor Primeiro-Ministro, a assinatura é deles, sim, porventura, mas o Senhor enganou-os quando lhes anunciou uma governação socialista, a eles e a todos os seus votantes, e, por isso, se assim foi, eles apenas deixaram de acreditar nas suas patranhas”),

Não gosto de um governo que recupera a equipa Sócrates (nas últimas nomeações, metade foram do governo do Senhor Engenheiro), uma equipa que nos pôs na mão dos credores, e gosto ainda menos do que esse sinal parece significar,

Não gosto do estilo truculento do Galamba, à laia da herança do Jorge Coelho, que garante que “Quem se mete com o PS, leva”,

E gosto ainda menos da sua falta de sentido de Estado.

Não gosto!

Mas, a António Costa, tenho que reconhecer a esperteza, o sentido de oportunidade, a paciência de esperar pela rajada certa de vento que rapidamente afastará o odor pútrido de uma governação moribunda,

E admiro-lhe a argúcia que já o mostrou capaz de passar pelo buraco da agulha, ele e mais a cáfila que o segue, e fazer-se senhor do reino.
Gosto mesmo das “Pessoas Sensíveis” da Sophia de Mello Breyner Andresen e quedo-me na súplica:

“Perdoai-lhes Senhor

Porque eles sabem o que fazem” .

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