João Ataíde: “Ativámos todos os meios de prevenção”

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DB- Carlos Jorge Monteiro

Disse, esta semana, que, e passo a citá-lo, “temos de levar a sério os alertas vermelhos”. Isso é a assunção de que a proteção Civil Municipal subestimou o aviso?
Não. Aliás, na fita do tempo verificamos que os vários comunicados que foram lançados pela Proteção Civil cumprem, rigorosamente, as orientações da Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC). Nada a acrescentar quanto a isso. Temos, aqui, um comunicado, que é lançado às 20H52, que diz claramente que o furacão pode passar entre Peniche e Cascais. Desde a emissão do comunicado à ação, há uma dilação de tempo para operacionalizar o processo. O que é que na minha perspetiva se deve alterar? Uma nova cultura de proteção civil: a proteção civil começa em cada cidadão e devemos ter a perceção de que os tempos mudaram e que devemos acatar, respeitosamente, as orientações que são dadas.

Por que é que esse plano não foi ativado?
Não foi ativado porque não havia dados que o justificasse. Segundo a lei de bases, têm de se verificar os pressupostos, certezas e objetividade. Portanto, não podia ser ativado. Foi ativado depois, quando já estavam reunidas as condições.

Reconhece que a marginal devia ter sido fechada ao trânsito e que os estabelecimentos comerciais deviam ter sido obrigados a encerrar ao final da tarde?
Já lhe mostrei o documento que diz que a tempestade passava entre Peniche e Cascais… A ANPC ativava o plano e a Proteção Civil Distrital respeitava-o, e estávamos legitimados para este exercício. A Proteção Civil Municipal segue em cadeia. As orientações vêm da ANPC, o Comando Distrital segue as orientações e distribui para os comandos municipais.

Disse que há que incutir uma cultura de proteção civil. Mas se a Proteção Civil não levou o alerta vermelho muito a sério, por que é que se exige aos cidadãos que levem os alertas mais a sério do que as autoridades?
Não é uma questão de não levar a sério. Cada um faz a sua interpretação, uma vez que os alertas não têm carácter obrigatório. Como viu no comunicado que lhe mostrei, o alerta era para todo o país e focaliza a tempestade entre Cascais e Peniche. À última hora, ampliaram até ao Porto, numa última emissão. Depois, alguns técnicos da meteorologia que, nas próprias redes [sociais], começam a mandar sinais, o que eu desconhecia, mas não lhes podemos dar crédito porque não têm a chancela de uma autoridade nacional. Portanto, encarámos o alerta com alguma precaução e ativámos todos os meios de prevenção. Estava tudo em estado de alerta vermelho. Para além disso, enfim, não houve mais cuidados.

Ainda acerca da necessidade de incutir uma nova cultura de proteção civil, defende que deve apostar-se na prevenção e em simulacros, com programas dirigidos às escolas, empresas, instituições e população em geral?
Exatamente. Nós já o estamos a fazer, mas as pessoas ainda levam esses simulacros como se fossem uma brincadeira.

A câmara vai reforçar as ações de sensibilização?
Nós somos o único município [português] que tem um plano municipal para a adaptação às alterações climáticas, temos uma carta de risco, que foi atualizada em função daquele plano, tratamos de ter salas climatizadas em zonas de risco e rurais… A nível da região, fizemos pressão junto do Governo, e conseguimos financiamento para termos câmaras de videovigilância. E vamos fazer um grande simpósio, em novembro, que vai ser inédito, a nível nacional, sobre as alterações climáticas, onde estarão as figuras mais eminentes nesta matéria. Portanto, nesta política, não me sinto em débito. Pelo contrário, tenho sido extremamente proativo, quer ao nível da região, quer ao nível local.

Acredita que depois da tempestade “Leslie” os figueirenses passem a encarar de outra forma os alertas, porque, apesar dos avisos, havia restaurantes, cafés e esplanadas a funcionar na marginal?
Acredito que sim. Toda a gente sabia que podia passar um tufão de grandes dimensões. O que é que podemos fazer? Se calhar, teremos de ser um bocadinho mais exigentes e os alertas poderão não ter de obedecer a critérios tão restritivos.

Em algumas zonas do país, foram cancelados espetáculos e na Figueira da Foz, durante o pico da tempestade, estava a decorrer um concerto no Centro de Artes e Espetáculos (CAE).
Cancelaram alguns pelas suas características. Quanto ao CAE, foi-me colocada a situação às sete da tarde. Cancelar o espetáculo… As pessoas vinham, necessariamente, para levantar o bilhete ou só tinham conhecimento quando chegassem ao local e criavam uma situação ainda mais caótica. No fundo, a decisão, embora arriscada, acabou por ser prudente: o CAE alojou cerca de mil pessoas e albergou cerca de 300 viaturas. Eu próprio estava no espetáculo, na expectativa de que nada ocorreria, porque, conforme lhe disse, os dados não apontavam para a Figueira da Foz. Quando caiu a energia, fiquei um bocado receoso e telefonei ao comandante [operacional da Proteção Civil Municipal, Nuno Osório] e disse-me que estrava tudo num alvoroço. Olhe, saí, eu e a minha mulher, na minha viatura, arrisquei a vida. Pusemo-nos a caminho, porque tinha a perceção de que era preciso proteger as pessoas que estavam dentro do CAE e ter um exercício de autoridade externo: não era internamente que ia conseguir dominar a situação. Os primeiros avisos começam a ser dados para o CAE e, de acordo com a ANPC, ninguém podia sair até cerca da meia-noite. Havia pessoas que diziam que era um sequestro público.

Como é que as pessoas se sentiram?
As pessoas sentiram-se desconfortáveis, mas, depois, quando saíram, perceberam que [foi para o bem delas]. Acabaram por sentir-se protegidas.

Pode consultar a entrevista completa na edição impressa deste fim de semana, 20 e 21 de outubro, do Diário As Beiras

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