Entrevistas virtuais à saída da reunião do executivo

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O repórter esperava ansiosamente o final da reunião do executivo, enquanto fumava uma cigarrilha e preparava o gravador. Não tinha tido tempo para preparar as perguntas que pretendia fazer. Paciência, iam sair de improviso. De repente, abre-se a porta e sai o elemento do executivo que não manda.
– “Sr. Vereador, alguma novidade da reunião? Ouvi dizer que ia ser discutido uma grande investimento na baixa. Que me pode dizer?”, perguntou dirigindo-se ao vereador com pelouros, mas que não manda nada.
– “O investimento foi chumbado. Imagine que o executivo que manda queria cortar nos canteiros de flores”, responde o vereador aborrecido e cheio de pressa.
– “Nos canteiros de flores?”, insistiu o repórter.
– “O PDM é claríssimo. Sem flores não há investimento”, afirmou perentório o vereador.
O repórter, boquiaberto, esperou a saída de outros vereadores. Saíram alguns, em grupo, manifestando em voz alta a sua indignação.
– “Um investimento duvidoso. Uns míseros 20 milhões de euros e pensam que podem ter um regime de exceção que permita cortar nos canteiros de flores? Ridículo.”, diziam os vereadores, falando todos ao mesmo tempo.
– “A subalínea 2, da alínea 3 do artigo 345º do regulamento de incentivo ao investimento na nossa cidade diz, explicitamente, que devem ser criados 3 canteiros de flores por cada 10m2 de construção. É inaceitável que não se pense nas flores como fator essencial do investimento. Pelo menos em política o que interessa é fazer flores. Para além disso, não aceitamos que se exija a uns aquilo que se dispensa a outros. É inaceitável”, rematou outro elemento da oposição que, entretanto, também saiu.
– “Mas é um investimento considerável, numa área muito degradada da cidade. Certamente que seria possível um compromisso?”, insistiu o repórter.
– “Uma vergonha”, gritava um vereador do executivo que manda. “Caiu a máscara à oposição. Passam a vida a falar em investimento, necessidade de inverter a sina da cidade, reconverter a baixa, etc., mas, na primeira oportunidade, chumbam, sem mais conversa, por causa de 30 canteiros de flores. Nem repararam que em frente a este edifício há um enorme jardim cheio de flores. Enfim, caiu-lhes a máscara, caiu-lhes a máscara”.
– “Mas o executivo falou com a oposição, no sentido de proteger o investimento, resolvendo em conjunto todas as diferenças e garantir que era aprovado?”, questionou o repórter.
– “Não falamos, nem tínhamos de falar. O assunto é tão claro. Acha razoável colocar em causa um investimento de 20 milhões por causa de meia dúzia de flores?”, respondeu o elemento do executivo.
– “Mas os regulamentos dizem que…”, perguntava o jornalista sem ter tempo de concluir.
– “Mas você pensa que algum investidor decente confia numa cidade em que as pessoas só pensam em fazer flores?”, respondeu o vereador num tom de indignação.
– “Isso é uma boa pergunta, Sr. Vereador. Já agora, o anuário financeiro dos municípios portugueses diz que na nossa cidade os impostos têm um peso de 66.5% na receita municipal (+ 18% que no início do vosso mandato). Isso é um canteiro que não o preocupa?”, pergunta o repórter.
– “Mas que raio tem isso a ver agora?”, diz o vereador com ar de indignação.
– “É que grande parte desses impostos afetam os negócios: IMT, IMI, Derrama, etc. Os investidores tendem a prestar muita atenção a isso, procurando saber como é que uma determinada cidade aduba o investimento.”, esclareceu o repórter.
– “Não diga asneiras. Percentagens elevadas de impostos na receita do município, são um forte sinal do dinamismo da nossa economia”, retorquiu o vereador.
– “Como?”, disse o repórter incrédulo.
– “Sim, eu sou economista. Sei bem o que estou a dizer”, atirou o vereador seguindo o seu caminho.

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