Opinião: Binge Watching

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1- No mundo contemporâneo temos um conjunto de factos novos que me preocupam e me surpreendem e fascinam. O fascínio vem muito da surpresa e do que não compreendo. Há pouco tempo pululavam fotos deselegantes da líder do CDS acrescidas de comentários muito soezes e absurdos que constroem uma visão machista da sociedade.

Frequentemente as críticas surgem numa esquerda esclarecida e com mais de sessenta anos. Uma esquerda que obviamente é machista e não se apercebe que comentários sexuais ou dirigidos ao períneo são baixeza e falta de correcção. Estou convicto de que seriam verdadeiros vilipendiadores de iguais gracejos sobre militantes do PS ou do PCP. A política das redes sociais está mesmo abaixo da cintura e se é verdade que o espaço de cada um é dirigido pelos próprios não é menos verdade que o insulto e a perfídia são puníveis por lei sobretudo se gratuitos e desnecessários. Ninguém se lembrou no “mundo dos homens” de fotografar os políticos que coçam as partes baixas, que inadvertidos colocam o dedo no nariz. Mas já vi numa revista um príncipe que se aliviava contra um muro – grotesco!

2-Byung-Chul Han é um pensador de escrita panfletária que se debruça sobre problemas do agora, avaliando diversas surpresas dos comportamentos modernos. Binge watching é traduzido de modo livre por “visionamento bulímico” e fala da doença de ver televisão (séries, filmes, etc) ininterruptamente. Sabemos que os canais tendem a adequar os seus conteúdos aos alvos que somos nós e que vão construindo armas de percepção dos interesses de cada um. Num mundo ideal das televisões vemos nos canais que assinamos aquilo que eles já perceberam que nos vicia. Este futuro carece de atenção, mas a sua existência já é presente no vício do sofá frente à tv. A viciação sedentária só pode ser corrigida disciplinando o horário, retirando televisores de casa, reduzindo os sofás e colocando passadeiras, mas estamos disponíveis para isso? A preguiça é uma característica que navega o sangue, montada nos eritrócitos, provoca uma letargia e uma anemia, mas sabe bem, ou não nos drogávamos.

3- Sou um fã de Cristiano Ronaldo futebolista e até podia estar de acordo com todos os argumentos machistas contra a Kathryn Mayorga de que nunca tinha ouvido falar. A questão que me desagrada é que o pagamento de uma indemnização para o silêncio é uma nota de compromisso e de culpa. Uma mulher jovem, com o fulgor da juventude, excitada entre talentosos jovens rapazes, num ambiente erótico e alegre pode exceder-se, confiar, mas pode mesmo dizer que não a qualquer momento. “Não é Não!” mesmo que nu e há que respeitar, apesar de todo o cérebro ter descido ao pénis.

Gostava muito que fosse um acto negativo e mentiroso, mas custa-me que mulheres e mães não esperem que a justiça investigue antes de apoucar Mayorga. Dominique Strauss-Kahn era candidato a Presidente de França e foi denunciado muitos anos depois por algumas mulheres. Era um predador. Infelizmente a cultura machista está entranhada e colada nos discursos, nos comentários. Não sei se é verdade, suspeitemos que só quer uns dinheiros, sei que pode ter sido uma estupidez de um garoto rico e mimado, alcoolizado, deslumbrado, mas não posso deixar de compreender mais recato até se apurar a verdade. O resto são atenuantes e agravantes que competem à justiça. Como no caso do ex-primeiro ministro Sócrates, ou no caso de Lula, ou no caso Pinho que salpica Mexia. Vamos esperar para ver. Se uma filha tua foi violada, mesmo dez anos depois a justiça não cansa!

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