Opinião – Surreal

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Estava a sair para uma viagem relacionada com projetos de I&D, quando li que o Presidente da República recomendava que não se berrasse em público sobre a Venezuela. Na verdade, numa entrevista à RR o PR dizia: “Para alguns, pode ser muito interessante, erradamente, começar a berrar em torno disso, mas podem prejudicar os nossos compatriotas que lá estão. O que tem que ser feito, tem que ser feito de uma forma que não é pública”. Pois eu discordo, nem estou a ver muito bem como é que isso pode prejudicar os nossos compatriotas.

Sobre a Venezuela devemos berrar mesmo, Sr. Presidente. E berrar a sério. Não é aceitável o que lá se passa, assim como não foi nada correto ter vários Governos a aproveitar o “dinheiro” que era retirado à população venezuelana: chamavam a isso negócios – não foi só o Sócrates, mas também o Portas e muitos outros. Não foram só casas, ou computadores, mas também pernil de porco e outros produtos. Isso faz de todos eles coniventes de uma enorme desgraça. E tudo isso deve ser berrado em público.

A seguir, li que o Presidente aceitou responder a perguntas da Universidade de Verão do PSD e não viu nisso nenhum problema. Ora, eu penso que essa sua atitude não faz o menor sentido e pode prejudicar muito a sua posição institucional. Não é ser diferente, não discriminar ou tentar estar mais próximo das pessoas. É pura e simplesmente uma atitude sem o menor sentido e que diminui a sua autoridade como Presidente da República. Lamento muito.

Pelo meio, ouvi no Washington Post uma conversa telefónica surreal entre Bob Woodward (o jornalista do Watergate) e Donald Trump, a propósito do livro “Fear”, no qual Woodward passa uma imagem muito negativa de Trump e da sua administração. Na conversa telefónica Woodward diz a Trump que foi uma pena não ter sido possível falar com ele para o livro, apesar das múltiplas tentativas. Nas respostas pode ouvir-se o discurso meio louco e atabalhoado que é característica de Trump. No entanto, em nenhuma delas Trump desmente o jornalista. Uns dias depois, o New York Times, numa iniciativa sem precedentes, publica um artigo de opinião anónimo, sob a forma de editorial, em que um membro da administração da Casa Branca afirma que na administração, por razões patrióticas, “há uma resistência silenciosa … de pessoas que escolhem colocar o país em primeiro lugar”, tentando assim impedir os impulsos mais sinistros e irrefletidos de Trump. O artigo é de uma enorme gravidade e coloca o New York Times, que é um jornal de referência, numa posição muito difícil. É verdade que tempos extraordinários requerem ações extraordinárias, mas só essa perceção do momento que se vive na Casa Branca é suficiente para perceber o perfil de Trump, num momento em que o mundo precisa de pessoas esclarecidas e equilibradas.

Por falar em coisas surreais, o militante do PSD Morais Sarmento resolveu opinar sobre o ex-primeiro ministro Pedro Passos Coelho: “O Pedro Passos Coelho sempre foi um homem da esquerda do PSD. Eu acho que ele quando chegou a líder do PSD estava galvanizado por alguns conceitos económicos que vinham da sua recente licenciatura. E foi por isso que foi definido como um perigoso liberal”. No fundo, o que Morais Sarmento diz é que PPC era da esquerda do PSD, ou seja, de centro-esquerda, mas, influenciado (“galvanizado”) com as suas recentes aprendizagens na Lusíada, guinou à direita, sendo por isso classificado como um “perigoso liberal”. Esta é uma declaração duríssima e injusta sobre o ex-PM, classificado como inexperiente e influenciável, com a qual não posso concordar. Aliás, considero absolutamente surreal que um atual vice-presidente do PSD diga isso sobre o anterior líder e ex-PM, sabendo que ele enfrentou durante o seu mandato um período muito difícil para o país.

Por fim, fico a saber que um português, que inventou ter sido vítima de um incêndio no Reino Unido, foi condenado a 3 anos de prisão. Não pude deixar de comparar com Portugal. Em Pedrógão alteraram-se moradas fiscais para certas pessoas poderem beneficiar de ajudas, as entidades que deviam fiscalizar, não fiscalizaram, quem deveria verificar, não verificou e quem deveria ser sério, organizou o esquema. A justiça em Inglaterra atuou. Em Portugal andamos de inquérito em inquérito, de investigação em investigação e quando a vaca tossir teremos resultados e responsáveis. Até lá, siga a festa.

Joaquim Norberto Pires escreve ao sábado, semanalmente

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