Opinião: No inacreditável reino de Satanás…

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Em julho de 2016, um ex-primeiro-ministro preveniu que o diabo chegaria em setembro, numa declaração imprudente, por ninguém conseguir prever o futuro. E como boa parte dos fazedores de opinião nacionais prefere políticas de laivos carmins às de ténues tons alaranjados, que hoje em dia andam esmaecidos demais, aquelas palavras tiveram eco em análises jocosas, mas que não dissecaram as razões subjacentes ao significado económico e político do que ele tinha dito…

Foi depois disso que li um livro escrito em 2015 por Adair Turner, intitulado “Entre a dívida e o diabo”, em que este autor analisa mecanismos entre moeda e crédito em contextos globais de sistemas financeiros, que permitem entender razões que estiveram na base de crises económicas que abalaram o mundo. Fica bem visível que estas crises não ocorreram por acaso, nem por “obra de Satanás”, resultando antes de alguma perfídia política de governantes que perverteram preceitos essenciais da economia, e da inércia de governos que não implementaram, a tempo, medidas de controlo eficazes sobre o funcionamento correto de sistemas bancários e creditícios.

Ignoro se aquela previsão do economista Passos Coelho foi motivada por esta obra de Turner, elogiada por Joseph Stiglitz, Prémio Nobel da Economia, que aliás vem alertando o mundo para a irresponsabilidade de excessivos endividamentos públicos, e para a infâmia das desigualdades. Assim como nunca saberei se “poupar” será ou não uma das palavras mais execradas por quem rege ao “satânico reino das finanças públicas portuguesas”, e preside às reuniões dos ministros das finanças dos países europeus aderentes ao euro. Mas que há razões para o supor, lá isso há…

Basta ver as taxas de juro que remuneram as pequenas poupanças daqueles a quem sobra algum dinheiro, após pagarem as contas de cada mês, para compreender a razão da última presunção. É que desde 2017 que, por as taxas de juro que remuneram depósitos a prazo bancários e títulos de dívida pública ao alcance do povo não renderem o suficiente para compensar as mais diminutas inflações, os pequenos aforradores não preservam o valor das suas poupanças.

Se estes quiserem ter maiores rendimentos, terão de correr riscos elevados, desconhecidos da maioria, e investir na bolsa e/ou em produtos financeiros complexos, pelo que este governo devia criar mecanismos de mobilização e remuneração de fracas poupanças, que defendam os pequenos aforradores da perda dos seus capitais, pelas inflações que acabam por potenciar maior crescimento económico.

Certificados de aforro com taxas de juro reais negativas, e certificados de tesouro com taxas de juro que podem até nem superar as taxas de inflação esperadas (apesar dos longos horizontes temporais destas aplicações de poupanças, mais adequadas a quem tem maior folga na economia familiar), não recompensam quem os compra. Pelo que se pergunta se há razões válidas para um governo, que paga taxas de juro mais altas aos que adquirem outros títulos de dívida pública nacional nos mercados globais, não remunerar melhor as pequenas poupanças do próprio povo? Defendem tais políticas, famílias, trabalhadores e reformados? É esta a economia social do país?

Mas como, para os mais poderosos e endinheirados, nunca há falta de instrumentos financeiros, nem de benesses fiscais que permitem obter ganhos muito significativos em fundos específicos, que requerem capitais avultados, e conhecimentos que não estão ao alcance de todos, conclui-se que o governo socialista, apoiado pela extrema-esquerda, tem gizado políticas mais demoníacas que certas “falas mansas de Belzebu”. Pelo que importa estar alerta para algumas malas-artes de certos mafarricos, que há demasiado tempo goram expetativas legítimas de o nosso povo poder viver um pouco melhor, e de preservar as suas parcas poupanças para os dias de maiores azares!

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