Opinião: Nem todos, Pacheco. Nem todos

Posted by

Em Maio deste ano, João Miguel Tavares escreveu na sua coluna de opinião no Público que a probabilidade de haver gente honesta no negócio do futebol é semelhante à do negócio de álcool na América dos anos 20. Daniel Oliveira, no Expresso, referiu-se aos clubes de futebol como constelações de maus costumes. E Pacheco Pereira, há dias no Público, foi categórico ao classificar o futebol como uma das máfias nacionais.
Pacheco Pereira escreveu mesmo que “são tudo valentões contra a corrupção, no café e nas caixas de comentários e Facebooks, mas depois, como se vê no futebol, fecham os olhos tão forte que até dói.” Nem todos, Pacheco. Nem todos. A 21 de Fevereiro de 2017, a Académica OAF participou no processo legislativo que veio alterar a Lei n.º 50/2007, de 31 de Agosto, com vista ao reforço do quadro legal sancionatório da manipulação de competições desportivas, que culminou na Lei n.º 13/2017, de 02 de Maio.
A Académica é o clube mais antigo de Portugal, com 130 anos de história, e cumpriu o seu dever de participação construtiva, desde logo rejeitando a nefasta e trágica consequência que a corrupção tem na nossa sociedade, que mina a sã concorrência e o desenvolvimento económico e coloca em perigo a própria democracia. A Académica foi ao Parlamento fazer sugestões (estão todas registadas) e saudar o arrojo, por exemplo, da equiparação das molduras penais dos crimes de corrupção passiva e activa, uma proposta que permitia entender que o bem jurídico em causa necessita de ser protegido por todos e qualquer um de nós, não somente em primeiro lugar por quem tem o domínio de facto de permitir que o crime aconteça ou não.
Também fizemos críticas. Por exemplo, quanto à pena acessória que podia conduzir à dissolução dos órgãos sociais ou inibição do clube, dissemos que a medida era desproporcionada, porquanto seria muito mais relevante o trabalho a montante de prevenção, nomeadamente dos dirigentes dos clubes, que deviam ser todos submetidos a um “fit and proper test”, utilizando a expressão inglesa. E não são só as pessoas dos dirigentes que devem ser submetidas a este tipo de testes. Também os capitais. Nesta matéria, fomos de parecer que devia, com as obviamente necessárias e devidas adaptações, ser aplicada, especialmente dado o seu carácter transnacional, a 4ª directiva comunitária relativa à prevenção da utilização do sistema financeiro para efeitos de branqueamento de capitais ou de financiamento do terrorismo, alargando desde logo o leque de pessoas politicamente expostas.
Caro Pacheco Pereira, com humildade lhe digo que, apesar de todos os diagnósticos que possam ser feitos, é com mais intervenção que, tijolo a tijolo, se pode construir um edifício onde mais gente séria possa habitar. Precisamos que as lutas contra a xenofobia, racismo ou corrupção, entre outras, não fiquem à porta dos estádios. Precisamos de causas. E a Académica é futebol de causas.

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.