Opinião: Mangas e bananas

Posted by

A iluminação das ruas, nesta zona sul da cidade, a mais pobre e mais popular, era pouco intensa, provocando um ambiente de penumbra e de mistério, algures entre a luz e a escuridão. Homens e mulheres movimentavam-se pelos passeios, caminhando em todas as direções. Trânsito intenso. Muito comércio. Pequenas lojas por todo o lado. Apesar de ser noite cerrada, a população efetuava as suas compras quotidianas. Pequenas padarias vendiam grandes pães, redondos, finos, saborosos, do tamanho de grandes pizas. Perante a nossa curiosidade, ofereceram-nos pão e sorrisos.
Numa caminhada noturna, deambulando sem destino, por uma cidade completamente desconhecida, com cerca de 20 milhões de habitantes, as surpresas são constantes e variadas. Provam-se uns bolinhos fritos, vendidos na rua. Atendendo à forte procura, devem ser muito populares junto dos locais. Adiante, muitas bancas vendendo fruta. Algumas bananas e mangas, ambas amarelas, custaram quase meio milhão de rials. Alguma dificuldade de comunicação e de entendimento quanto ao valor final a pagar. Meio milhão? Juntam-se três ou quatro pessoas a quererem ajudar. Uma mulher, lindíssima, como quase todas neste país, solicita autorização, segura na minha carteira, inchada com tantas notas e retira cinco notas de 100 000 rials para pagar a reduzida quantidade de fruta. Tudo na maior cordialidade e segurança. Um outro homem explica-me que no meu país o dinheiro é muito diferente, daí a minha dificuldade de entendimento. E tinha toda a razão.
Devido ao embargo americano, a inflação é galopante e o valor da moeda local diminui constantemente. Duzentos euros equivaliam a 12 milhões de rials, o que dificultava os pagamentos, o transporte das notas e a verificação dos trocos. Felizmente, a população era educada, honesta e extremamente afável, de uma simpatia inexcedível. Este embargo impede igualmente a utilização dos cartões bancários internacionais, o que representa um assinalável constrangimento quer para os viajantes quer para a economia local.
Ao virar uma esquina, surge uma bela livraria, moderna e bem iluminada, com um número apreciável de clientes a comprarem livros. Bom indicador. Aliás, num voo interno, já tinha reparado que a maior parte dos passageiros, todos autóctones, esteve sempre a ler jornais e livros. No interior da livraria, a variedade era imensa.
Neste país, escreve-se e lê-se da direita para a esquerda, ao contrário da realidade portuguesa. Assim, livros e revistas também se abrem ao contrário. Apenas olhando para as fotografias ou desenhos da capa era possível perceber o eventual assunto que o livro continha. A fotografia de José Mourinho ou a fotografia de Donald Trump, serão dois bons exemplos. Os livros estavam escritos em farsi, a língua persa. Parece árabe mas não é árabe. Os persas não são árabes. A língua é diferente e a religião também. Os persas têm a sua própria interpretação do islamismo. A maioria dos persas são xiitas enquanto a maioria dos árabes são sunitas. Do mesmo modo que a maioria dos europeus do sul são cristãos católicos enquanto a maioria dos cristãos da europa do norte são protestantes.
Continuando a deambular por essa rua, deparamos com outra livraria e outra e mais outra. No total, seriam mais de 20 livrarias seguidas, intervaladas por cafés e por pastelarias modernas e agradáveis. Todas com clientes, todas com movimento. Noite escura, no sul da imensa cidade de Teerão, a zona mais pobre desta megalópole iraniana.

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.