Opinião: Irregularidades em Pedrógão Grande?

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Irregularidades em Pedrogão não houve. Foram coisas dos portugueses. “Primeiro eu, depois os meus familiares por fim os meus amigos e depois talvez os outros”. Irregularidade nos helicópteros kamov também não há. É uma simplicidade portuguesa. O roubo de Tancos foi afinal um episódio da guerra de Solnado e nunca um problema. Não tem culpados. A nossa Universidade não estar ao nível de Cambridge e Oxford nos rankings internacionais é porque os rankings não nos ajudam.

Um problema de escola em confronto com personalidades e famílias – este sim é um problema português de que tenho falado muito. Há um desempenho que se caracteriza por falta de mestre e ausência de estratégia escolar. O pensamento que norteia e orienta tem de ser construído por reflexão profunda, educação quer teórica quer de exemplos. Como pode ensinar quem não dá as aulas? Como pode transmitir conhecimento quem não está presente, ou quem esconde o que se sabe, ou quem se ofende das perguntas, ou quem chega sempre tarde? O exemplo é parte integrante da passagem de testemunho e por isso a bandalheira, o desenrasca, o espertismo, a “canalhagem” sorridente, a facada nas costas, a torpeza, o absentismo, a deselegância, a vilanagem se tornaram coisas nacionais sem precisar de aulas. Vejam a condução e o estacionamento dos vilões que manifestamente se estão marimbando para todos os outros, menos válidos, deficientes, ou mesmo idosos.

Vamos ao assunto Universidade, onde já manifestei antes a minha admiração pelo actual reitor, pelo que me sinto à vontade para o embate seguinte.

A Universidade de Coimbra foi a terceira da Europa a nascer e devia estar entre as melhores, as mais exigentes, as mais credenciadas, com artigos citados, com rácios de excelência cumpridos, com financiamento de empresas e de Estado, com rotação de quadros e limpeza dos párias de estudos infindos e sem qualquer eficiência. Investigador não precisa dar aulas, quem dá as aulas pode não ser investigador, e toda a panóplia de regras estúpidas e desadequadas do passado tem de ser mudada em prol de um espaço de alta produção e de indiscutível funcionalidade em patentes, em vantagens competitivas industriais, informáticas, biológicas, etc. Salários melhores para quem trabalha bem e muito e porta de saída para quem não conseguiu. Sem ofensa, apenas como nas finais do desporto de alta competição – está fora porque não chegou lá. Ponto. Recordo o Taborda Barata que chegou à Holanda e numa pequena Universidade viu uma mesa com uma conversa entre prémios Nobel. Por aqui não há nenhum a ir ao café. O próprio Taborda só teve o seu reconhecimento na Covilhã onde hoje é Vice-reitor. Reparem no politécnico de Bragança que marca a cidade na sua magnífica acção de relacionamento entre estudos e comunidade. Os alunos têm onde ficar, a cidade é instruída contra os exageros nos preços, o Politécnico investe na vertente pessoal e depois na vertente lúdica. Ter milhares de jovens implica ter dezenas de preocupações em vertentes cultas, alimentares, educacionais, associativas, académicas. Educar é uma missão transversal.

A exigência do povo com os atletas olímpicos não tem sido tão ténue como agora para este resultado universitário. Telma Monteiro, Naide Gomes, Rosa Mota, Domingos Castro, Carlos Lopes, Carlos Queirós e seus muchachos, Nelson Évora, as recentes vitórias no remo, no futebol, no andebol, no hóquei são quase tratadas com deselegância. Prestações de primeiro, segundo e terceiro lugares não foram encaradas com bonomia. Vejam esses medíocres jornais desportivos que dão primeira página ao rapazito que vem da merdaleja para o Benfica sem ter provado nada e não fazem capa com os 24 medalhados em olimpíadas. É uma escola de mediocridade.

O reumatismo de Coimbra conduziu a esta coisa hedionda de haver preocupação por se ter descido abaixo de quinhentos no ranking universitário. As luzes vermelhas deviam estar acesas desde que estamos abaixo de 20. Tenhamos consciência que se pode ter excelência em coisas pequenas e baratas. Pode atingir-se o lugar de citação, nomeação com investigações básicas, o que é preciso é muito trabalho, muita seriedade e muita coerência para que os outros leiam e respeitem.

Diogo Cabrita escreve ao sábado, semanalmente

One Comment

  1. Caro Sr. Diogo Cabrita,

    Estará certamente equivocado quanto à qualidade excelsa de Cambridge ou Oxford. Temos muito docente nas universidades lusas que por lá fizeram o seu doutoramento, e sobretudo na década de 70-80 do século passado, e 10 minutos de conversa bastam para constatar qual a sua tipicidade de atributos. Mas se falarmos em poder de compra de canudos, talvez nos entendamos quer quanto a Cambridge e Oxford, quer quanto a Coimbra, quer quanto a outras universidades.
    Muito daquilo que segue do que escreve merecia maior atenção e eventual revisão. Estará a descurar o bom poder observacional, ou será interesse pessoal?
    “Primeiro eu, depois os meus familiares por fim os meus amigos e depois talvez os outros” não é excepção em Ciência, nem muito menos na Academia de Coimbra. Ciência Altruísta é coisa ida. Mas haverá ainda resistentes e resilientes por esse mundo fora, qui sapit, ainda pela sua amada cidade de Coimbra.
    A Ciência é um negócio, Sr. Diogo Cabrita. Negócio, com o qual certas personalidades podem facilmente entrar em confronto, e outras não. Poderá bem ser que as que não entram em confronto, são as que ficam, ao passo que as outras, poderá bem ser as que saem porta fora.
    Quem melhor trabalha nem sempre é reforçado ou recompensado. Sobretudo se entrar em confronto com o poder instituído.
    Até parece que o Sr. Diogo Cabrita não é tão sabido neste assunto dos saneamentos encapotados, lá pelos hospitais onde labora, ó Sr. Diogo Cabrita! Na Universidade não é diferente.
    Investigador não precisa dar aulas. E explicamos porquê, Sr. Diogo Cabrita. É que sucede haver excelente investigador que é um autêntico Bicho do Mato, e cujas aptidões pedagógicas e talentos sociais/relacionais são quase nulas. Já observamos aulas de certos investigadores brilhantes do tipo Bicho do Mato, com quatro estóicos gatos pingados.
    Salários melhores para quem realmente trabalha e bem, é coisa inédita em Portugal e quem muito reinvindica, tem habitualmente como desfecho a porta de saída. E olhe que nem é caso de falta de talento, ou insucesso, Sr. Diogo Cabrita…
    Quanto a rectors e rectores, sucede que lá voltamos nós à Tarantella composta por Roberto De Simone, a Tarantella de lu cacare.
    Para quem trabalha, a sudata è generale, Sr. Diogo Cabrita.
    Mas a cacar son tutti eguali.

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