Opinião: Halitose

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Em 1550 antes de Cristo já se falava de halitose, esse tabu que resolvo desmistificar hoje. Fui rever o tema a Lisboa numa conferência da APMCG – Associação da Medicina de Proximidade – numa iniciativa que me recordou uma provocação que apresentei a um Congresso de Cirurgia há vinte e tal anos com algum escândalo: “a branca de neve e as sete causas do mau hálito”. Falava de sete grandes gatilhos porque as etiologias são inúmeras e os especialistas começam a surgir. Kim Basinger recusou um papel ao saber que determinado actor a quem fedia o bafo teria de ser beijado.

-com esse jamais! – Disse e fugiu da tarefa!

Imaginem que a moça gramava com sete anões cada um com seu bafo sui generis.

Na Conferência de halitose (um sintoma com o código no CID-10 de R19.6 ), Ana Dias foi a oradora que enfrentou o impacto psicológico do mau hálito. Há quem tenha e não saiba, há quem lhe informem e não acredite, há quem não tenha e vive infeliz pensando que tem (halitofobia). De facto, a percepção de halitose em nós não existe. Não cheiramos a nossa boca como os outros odores. Há quem levante os braços e surjam moscas. Há quem deixe a sanita em guerra química (que um fósforo acesso sempre apaga). Há quem tresande dos pés. Este é o cheiro que mais me indigna e desconforta. Podemos esfregar os dentes com um fio e perceber que solta uns sulfitos atrevidos e metálicos – ups, a boca tresanda! soprar nas mãos em concha é que não dá. O hálito é o primo direito da eructação e do soluço e do espirro, todos trazendo gases à boca que se abre sã ou não.

Ana Dias, professora de psicologia, esgrimia a linguagem técnica com uma eloquência que me deixou de queixo caído. – Adoro ouvir um lente que o é. Sempre admirei quem subjuga as matérias e as manuseia como se fosse um baralho de cartas na mão de um crupiê. As bactérias da boca libertam os gases como a putrescina que dá cheiro de carne em putrefacção, ou o sulfeto de hidrogénio que recorda os ovos podres, ou o escatol que é escatológico, ou a cadaverina que manda o bafo de carne com dez dias ao Sol. O bafo pode ser mesmo uma complicação matrimonial referido a este grau de violência. Se o tipo cheira dos pés, fede da boca e ressona a noite toda, não é um Príncipe. Ai que posso ser eu! Mas a boca na boca não sente os gases que cheiram – é o que vale!

Não cheirávamos nada se excluíssemos o nervo olfativo mas ele lá está e não perdoa. A importância dos odores orais está a ser crescente até para o diagnóstico como é o breath test para reconhecer a presença de Helicobacter Pylori e a sua característica amónia. Também os diabéticos em cetoacidose cheiram dos poros e da boca porque estão em acidémia. A indústria farmacêutica que é de importância focada descobriu os cromatógrafos dos gases expirados ou “narizes electrónicos” que em breve todas as clínicas dentárias terão. É a década da beleza, do ginásio, do instagram e do combate ao fedor oral. Miyazaki já construiu uma classificação de mau hálito. As academias estão a perceber o tema e a lançar os seus primeiros mestres. Conheci nesta conferência um português exemplar que trabalha em Barcelona e se doutorou no tema: Jonas Nunes (Hospital Teknon) também ele eloquente e com uma experiência avassaladora.

Mas todo o conhecimento é complexo e multidisciplinar e toda a doença carece de gatilhos e predisposições sendo multicausal. Assim a percentagem de mau hálito por falta de higiene oral é cada vez menor porque a medicina dentária e as escolas tem feito seu trabalho e as periodontites, as cáries, as bocas secas medicamentosas ou outras, línguas saburrentas, estomatites, caseum nas amigadalas, foram reduzindo a percentagem da boca na importância da halitose. Hoje temos o refluxo gastro esofágico com a tussícula nocturna e a obesidade a ajudar, crescendo nas causas. Os hábitos tabágicos e alcoólicos não ajudam para a frescura da boca. a dieta rica em cebola e alho também desvanece a atracção. Os efeitos secundários de fármacos e de produtos conservantes de alimentos ganham peso nas novas causas. O cancro do pulmão, o divertículo faríngeo-esófago de Zenker, as otites também contribuem. Nascem depois as causas do génio louco dos homens. Os pircings da língua e as prótese dentárias e os implantes mal realizados (às vezes o barato sai cheiroso) contribuem com a iatrogenia do bafo. Mas atenção aos que se julgam sãos e livres, a generalidade de nós tem hálito fisiológico matinal que afasta os netos dos primeiros beijos dos avós e os filhos das carícias bafientas das mães. Lave lá os dentinhos antes de se dar aos carinhos e beba um copo de água. O cansaço olfativo é o amor que já não liga – algo como a fadiga fiscal dos contribuintes após o Governo do Bloco de esquerda. Fede-me à azia.

Diogo Cabrita escreve ao sábado, semanalmente

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