Opinião – Frémitos

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A sensação de frémito é dada pela fístula artério-venosa onde o fluxo é caótico, palpando-se um fervilhar da corrente que passa de modo livre da artéria (mais força) para a veia (menos pressão) num processo que dilata a estrutura da veia eferente por hiperpressão da artéria aferente.

Estas construções são criadas para permitir a hemodiálise, de modo a evitar a punção constante dos braços em busca de acessos. As fístulas artério-venosas foram uma melhoria incrível para a vida dos insuficientes renais e têm uma importância major até a ciência acabar com este sistema e encontrar um fármaco que substitui a própria diálise.

Entretanto criou-se a diálise peritioneal que forma uma filtração adequada de líquido através da membrana do peritoneu num mecanismo que era já conhecido e que consiste em aproveitar o normal, exagerando a sua função. O peritoneu é um saco que envolve os órgãos digestivos praticamente todos e recebe seis litros de líquido por dia (“grosso modo” uma vez que cada um com sua idiossincrasia) de uma pessoa normal e é filtrado na mesma proporção deixando um saco virtual. Por vezes há falhas porque absorve menos e cria restos de líquido a que chamamos ascite ou derrame peritoneal conforme a causa do defeito. A máquina perfeita de fi ltração leva com líquidos construídos pelos cientistas exagerando a quantidade que a membrana tem de limpar e desse modo fazemos a diálise peritoneal. Esta introdução não serve para nada neste artigo que queria falar de amor. O frémito é aquilo que sente o apaixonado na sua primeira paixão. É um fluxo irrequieto, um coração que bate de modo irregular, de modo sentido e nós não podemos sentir o cabelo crescer, ouvir o pulmão respirar, a barba a nascer, o suor a deixar as glândulas, o coração a bater, ou a vida era um inferno. Nas condicionantes da emoção somos esse animal que sente o que não deveria ser perceptível. A dor faz gritar, o amor faz corar, a paixão baixa os olhos e treme as mãos e acelera o coração. O facebook de hoje é muito o frémito das emoções. Sem filtro, sem diálise, os cidadãos insultam-se, explodem, declaram-se, expõem-se intimamente e provocam-se. A paixão com que interagem tem muito de frémito, de lucubração excitada e perdem-se bons momentos de estar calado. Acredito que os fanatismos se manifestarão com correntes sanguíneas caóticas irrigando cérebros onde se arrumou pouca cultura, onde a biblioteca lida é de centímetros de lombada.

Acredito que este sangue de fluxo desarrumado que sentimos como que um ferver bolhoso na palpação é uma coisa que precede o ciúme criminoso. A sensação violenta que trespassa a razão e é causa de tantos crimes apaixonados tem de ser estudada pelo Damásio nas suas centenas de PETs e Ressonâncias para descobrir onde a filtração falhou. Até lá anda aí mais um doido que assassinou a mulher e se calha fica arrependido depois do fluxo normalizar.

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