Opinião: Eugénio Lisboa e o Museu das Descobertas ( 2 )

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Estas maravilhas vistas, experimentadas, vividas pelo homem novo vão dar ao conhecimento científico uma ousadia nova: o que está escrito nos livros dos antigos deixa de ser sagrado: ao que está escrito sobrepõe-se agora, com orgulho, o que é “claramente visto” e experimentado criticamente. Nas palavras de Sílvio Lima:

“O perípato, o «magíster dixit», o comentarismo medievo eram vencidos pelos factos concretos. «Rien n’est plus écrasant qu’un fait.» (Broussais). As necessidades comerciais e industriais de Florença e Veneza, as necessidades lusas de navegação ou pilotagem matemático-astronómica, por outras palavras, o económico e o técnico, em íntima conexão, arrastavam o varão renascente ao contacto e ao exame directo do real. A natura substituía a escritura, a experiência derrubava a glosa, a ciência desterrava a erudição. Os regimentos, os roteiros, a nova teórica do céu, os progressos da hidrografia, da cartografia, da oceanografia, a inesperada colheita de factos novos e exóticos, a contrastaria de erros de observação do pretérito, etc., não consentiam já o jugo mental de Aristóteles (…)”. Por outras palavras, “à natureza amortalhada nos textos, sucedera o experimentalismo crítico.”

O homem novo acreditava, orgulhoso e deslumbrado, no que via e experimentava e não no que os livros antigos diziam: “Eu o vi certamente (e não presumo / Que a vista me enganava)”, como dizia, atrevidamente, Camões. O filósofo inglês Bertrand Russell observou, a propósito, que Aristóteles poderia ter evitado afirmar que as mulheres têm menos dentes do que os homens, pelo expediente simples de pedir à Senhora Aristóteles que abrisse a boca.

As descobertas trouxeram precisamente isto: um homem novo, curioso de ver e registar o que via (“Vi claramente visto o lume vivo”), rejeitando as “escrituras” e atento apenas à “natura”.

Com as descobertas, o mundo do conhecimento alargou-se enormemente e afirmou-se decisivamente uma nova forma de adquirir esse mesmo conhecimento: não, glosando textos antigos e obsoletos, mas, antes, vendo, muito claramente e muito criticamente, o que ali estava para ser visto.

Venha, pois, sem complexos de culpa ridículos, um bom Museu das Descobertas, que testemunhe, com vigor, aquela aventura humana tão prenhe de consequências.”

 

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