Opinião: Eugénio Lisboa e o Museu das Descobertas ( 1 )

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Debruço-me sobre o último artigo do ensaísta e académico Eugénio Lisboa, intitulado “Um Museu das Descobertas?”, publicado recentemente no “Jornal de Letras”.
Trata-se este artigo de um tema por si excelentemente documentado, como ele próprio defende, “sem complexos de culpa”, que parecem atormentar a (in)consciência de uma certa esquerda que ignorantemente através da “pena ao vento”, como diria Eça, de seus pseudo-intelectuais pretendem opor-se histericamente à criação de um “Museu das Descoberta” em homenagem a heróicos marinheiros portugueses de antanho que deram “novos mundos ao Mundo”.
Só falta, consequentemente, passaram a exigir em petição pública a demolição da “Torre de Belém, pedra por pedra centenária, como quem rasga, página a página, um passado por “mares nunca dantes navegados”, na gesta do nosso imortal vate, Luiz Vaz de Camões.
Tem o texto de Eugénio Lisboa o abono do seu autor ter sido, em tempos da sua vivência na então Lourenço Marques, um declarado combatente contra o Estado Novo numa altura em que esse facto trazia amargos de boca.
Segue-se a transcrição “ipsis verbis” desse seu texto: “Descoberta – acto ou efeito de descobrir (algo), retirando-lhe a protecção, a cobertura, a capa ou invólucro que cobre, esconde; descobrimento. (Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa)
A América exporta muitas e variadas folias que, depois de levantarem poeira e fazerem não poucos estragos, internamente, vão, de seguida, agitar o “milieu” europeu e, com um pouco de atraso, acabam por aterrar, gulosas, na pátria lusíada.
Entre as folias que os americanos produziram, com grande alarido, primeiro para consumo caseiro, depois, para exportação urbi et orbi, encontra-se a famigerada “political correctness” com, a tiracolo, o vigilante policiamento da linguagem.
Falar, escrever, nomear passou a ser o mesmo que pisar terreno minado. Cada palavra passou a ser escrutinada com lupa vigorosamente selectiva e duramente punitiva. Nada escapa a esta folia vigilante, obtusa e omnipresente.
A obra-prima de Mark Twain – As Aventuras de Huckleberry Finn – foi compulsivamente retirada das escolas porque alguns personagens, no romance, se referiam aos negros, tratando-os por “nigger”. Não é, obviamente, Mark Twain quem é o racista: o racista, se o for, será, quando muito, o personagem do romance, apresentado ou não – conforme o caso – como vilão.
Não importa: a “política correctness” é implacável, na sua vigilância eriçada e pidesca.
Vem isto a propósito da ridícula celeuma recentemente levantada entre nós, relativa a um futuro Museu das Descobertas que a Câmara Municipal de Lisboa teria em projecto. Imediatamente após ventilar-se a ideia, as vestais da “political correctness” puseram-se ruidosamente ao alto:
“Descobertas”, “Descobrimentos”? Que horror! Que abominação! O que aquelas palavras temíveis não escondem de ignomínias perpetradas pelos descobridores lusíadas! O colonialismo, a escravatura, a exploração desenfreada… Celebrar as descobertas? Nunca! Descobrimos o quê? Se os povos até já lá estavam… As tontices, já se vê, atraem-se umas às outras, em corrupio foleiro. Claro que houve, em séculos que já lá vão, descobertas, muitas e variadas e de enorme valor. Um mundo deslumbrantemente novo se foi destapando, aos olhos impreparados dos atrevidos navegantes portugueses.
Nesse magnífico livro, Ensaio sobre a Essência do Ensaio, de Sílvio Lima, que veementemente recomendo não só aos arautos da “political correctness”, mas a todos que ainda o não tenham lido, glosa-se, magistralmente, o que foi esse encontro fascinado com o novo:
“O espaço terrestre dilatara-se. À dimensão marinha mediterrânea e báltica – própria da Idade Média – acrescentara-se agora a dimensão atlântica, índica e pacífica: o infinito “mar-oceano”. No formoso dizer de Humboldt, os portugueses e os espanhóis duplicaram para os habitantes da Europa a obra da criação”.
Esta ampliação do universo disponível causava vertigens:
“Suponde”, observa o filósofo Sílvio Lima, no seu livro fundamental, “[suponde] uma pessoa, posta num imóvel aposento claro, cercado de seis grossas paredes e que as visse de repente tornarem-se elásticas, móveis, fugirem vertiginosamente, como que sem fim, para longe, para a direita e para a esquerda, para cima e para baixo, para a ferente e para trás. Sensação de desprendimento físico, de queda ponderal, e de estonteamento visual dinâmico.”
Tal como este aposento, o universo, no tempo das descobertas, alargava-se irresistivelmente, física e mentalmente, trazendo espaços e gentes novas e ensinamentos também novos:
“À vivência do atordoamento físico junte-se o vinho, de picante agulha, do exotismo. Não só o espaço terrestre se dilatara; o planeta complicara-se também com outras “novidades”: faunas, floras, minerais, meteoros, estrelas, etc. Como se fosse um “leitmotiv”, a palavra novo ressoa a cada passo, vibrante e cálida, na sinfonia geral.” (Sílvio Lima, opus cit.)
O filósofo dá-nos exemplos de textos em que a palavra novo cintila constantemente, com orgulho deslumbrado:
“Foi descoberto um novo mundo e novas terras numa Nova Espanha ou Índias Ocidentais e nas Orientais.” (Francisco Sanches) “El descubrimiento deste nuevo indiano mundo.” (Bartolomé de las Casas) … A nova do achamento desta vossa terra nova.” (Pero Vaz de Caminha) “Outro mundo novo vimos / Per nossa gente se achar.” (Garcia de Resende) “Eis aqui as novas partes do Oriente / Que vós outros agora ao mundo dais.” (Camões) “Un monde nouveau et si enfant” (“Um mundo novo e tão criança.” (Montaigne) E, entre outros, o grande matemático Pedro Nunes: “Descobriram (os portugueses) novas ilhas, novas terras, novos mares, novos povos; e o que mais é: novos céus e novas estrelas.” E Garcia da Orta, que proclama com incontido orgulho: “que se sabe mais em um dia agora pelos Portugueses do que se sabia em cem anos pelos Romanos.” Todo este “novo” surpreendente causava espanto (“Cousa certa de alto espanto”, dizia Camões) e surge como grande “maravilha” (“Grandes cousas estranhas / Outras muitas maravilhas!” – Garcia de Resende). (Continua)

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