Opinião: Estórias de Verão – a “guerra da água”

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A imagem de São Sebastião, que encima um dos Arcos do Jardim, estava originalmente cravada com setas. Certo dia, um grupo de estudantes, farto de ver dor no mártir, arrancou-as e deixou no seu lugar um letreiro: “já basta de padecer”. O que me faz recuar aos séculos medievais da Lusa-Atenas e à dependência da água: insuficiente na Alta (a razão de ser do aqueduto); equilibrada no Jardim da Manga (a ‘fons vitae’ que nasce do centro do Universo para os quatro rios do Paraíso); descontrolada no Mondego.

Por patrocínio das filhas de D. Sancho, faz-se a fundação do mosteiro de São Domingos, perto da rua Direita, antiga rua da Figueira-Velha que decalca a via romana vinda da portagem e ia direta ao porto do Arnado, num lugar onde “avia muita frescura de pumares que chamavão o Figueiral”.

Resistiu aos implacáveis humores e insultos do Bazófias até que, no século XVI, os dominicanos mais pareciam náufragos do que monges. No inverno as águas do rio atropelavam-se ganhando a altura do mosteiro e o Verão punha a descoberto os lodos pútridos de onde emergiam vapores nocivos à saúde.

Assoreados, transferiram-se em 1566 para um dos ‘quarteirões’ da rua da Sofia. Durante séculos a parte cimeira da torre do antigo mosteiro, como uma lápide, assinalou o lugar de ‘Chão da Torre’ (ainda visível na planta da cidade de 1845, do goês Isidoro Batista).

Perdeu-se no tempo até que, em 2008, a construção de um parque de estacionamento subterrâneo pôs a descoberto os vestígios arqueológicos do antigo local de formação da elite dominicana em Portugal. Ali ficou, parcialmente sob a Av. Fernão Magalhães, oito metros abaixo do nível freático do rio Mondego.

Não quiseram dar-lhe a sorte do Convento de Santa-Clara, nem souberam dignificar a nova igreja na rua da Sofia, que acabou descaracterizada como Centro Comercial e desclassificada de Monumento Nacional.

Sobrou a ‘Capela do Tesoureiro’, assinada por João de Ruão, que, em boa hora, foi acompanhar a sua fantástica “Deposição de Cristo no túmulo” no Museu Nacional Machado de Castro. Pelo caminho perdeu-se história e património, como o famoso sino do antigo mosteiro, o da descrição do frei Luiz de Sousa, que, por erro de cálculo na sua fundição, abalava consigo a torre que o suportava “de tal modo que na base fazia uma abertura que podia receber o grosso de hum dedo polegar”. Aliás, a sua grandeza consta da passagem por Coimbra, a caminho de Santiago, do infante D. Luiz (pai do prior do Crato). Ao subir à torre e ao ouvir dobrar o sino, apanhou tal susto que cortou com a sua espada a corda que movia o sino.

Enquanto os dominicanos fugiam de Lameira, D. Sebastião mandava (re)construir na Alta o aqueduto e a recolha da água na encosta de Celas, maioritariamente na fonte de el-Rei e da Rainha (Colégio de Tomar, hoje penitenciária). Correndo com a gravidade, depois dos arcos, a água seguia subterraneamente até ao Fontanário dos Bicos (‘fons fori’), então no Largo da Feira dos Estudantes (largo da Sé-Nova).

A obra real, sabotada à noite pelos frades de Santa Cruz, durou mais do que devia. Com uma opinião elevada de si próprios, preferiam que os “sarrazem per meeyo” a perderem as nascentes. Ora, como dois monólogos não fazem um diálogo, instalou-se a ‘guerra da água’. No desenlace, os Crúzios ainda foram coagidos a partilhar a água do Chafariz da Ribela (acima do mosteiro), secam-lhes o fontanário da Manga (no coração do mosteiro) e arrasam-lhes o chafariz de São João (em frente ao mosteiro).

Nada de novo no motivo destas guerras, basta recuar 4.500 anos, à Mesopotâmia do rio Tigre e Eufrates, para encontrar a nossa tendência para a “guerra da água”. Estas estórias só equacionam a possibilidade de estamos condenados a encontrar o equilíbrio, com engenho e com bom senso, na nossa relação primordial com a água.

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