Opinião: Curral das Freiras voltou ao século XIX… e o país, mantém-se

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A escola é um elevador social, como espaço promotor da igualdade e de oportunidades. É (era) assim a Básica 123 do Curral das Freiras, num dos lugares mais pobres da Madeira. Não há campainha, nem trabalhos para casa. E em poucos anos entrou no top nacional.

Incomodou o Governo Regional da Madeira e o Governo da República! Agora, foi anexada à Escola de Santo António. Voltámos ao século XIX!

Uma escola na zona mais pobre e isolada da Madeira, onde metade das famílias não tem internet e 92% dos alunos beneficiam de Acção Social Escolar, tem tido – consistentemente – notas superiores à média nacional. Em 2015, a Escola Básica 123 do Curral das Freiras superou-se. Teve a terceira melhor média nacional no exame de Português do 9.º ano, com 4,4 valores (o máximo é cinco) e foi a melhor escola pública do país na disciplina, num ano em que apenas três escolas públicas ficaram entre os 50 primeiros lugares.

A Matemática, está dentro do top-100 na classificação geral.

As notas valeram um telefonema de parabéns do Secretário de Estado da Educação. Não é para menos. Tinha tudo para dar errado…mas não deu!

Existia nestes miúdos a ideia de que o filho de um agricultor estava condenado a ser agricultor”, recorda Joaquim Sousa, director executivo da escola. “A única saída era trabalhar a terra ou emigrar.”

Existia uma sociedade conformada com a sua (pouca) sorte e uma enorme resistência dos professores em ficar.

Mal chegam, os professores percebem que vão encontrar um lugar de igualdade e de oportunidades que permita projectar e elevar as pessoas”.

Em vez de optar pelo facilitismo, a escola aumentou os níveis de exigência.

A componente “saber” (conhecimento da matéria), que representava 60% ficando os restantes 40% para o “estar” (comportamento, assiduidade, participação), foi elevada para uma proporção de 90/10. “Estes alunos, pelo contexto social onde vivem, só têm uma oportunidade e precisamos de agarrá-la.”

A subida da exigência não significou uma pressão acrescida sobre os alunos. Pelo contrário, diz. A escola adaptou-se às necessidades dos alunos e o próprio funcionamento teve ligeiras alterações. Para começar, não existe campainha. “Há mais responsabilização e menos tolerância”. Outra mudança foi a abolição dos trabalhos para casa. A lógica é a de que se os alunos cumprirem na escola, não é preciso sobrecarregá-los em casa. “Os miúdos têm de ter vida para além da escola.” Joaquim Sousa não quis passar para os pais a tarefa de co-ensinar. “Neste contexto social, não ia resultar. Ia ter um efeito contrário.”

“É um erro tratar por igual o que é diferente. Isso não é igualdade, promove, sim, a desigualdade.”

É praticamente a única escola do país que vai da creche até ao 12º ano. Por isso as turmas são pequenas.

Nem todos podem ser doutores, nem todos querem sê-lo, mas todos podem sair preparados para o mercado de trabalho.

Aqui, tudo é pensado com um único objectivo: o futuro sucesso profissional. Até o lazer.

Os heróis, são os alunos!

Provaram que é possível!

A escola não são paredes e muros, mas um lugar seguro para os sonhos dos jovens. Ninguém é deixado para trás.

É a segunda melhor escola madeirense nessa classificação. A primeira é privada.

O Curral manteve-se entre as 100 melhores do país e na liderança das escolas públicas da ilha.

O modelo implementado deveria ser replicado noutros estabelecimentos de ensino. Não a papel químico, porque é preciso olhar para as características dos alunos e para o contexto social onde a escola está inserida.

“É preciso colocar os alunos em primeiro lugar. “Isto só funciona se tratarmos os miúdos da mesma forma que queremos que os outros tratem os nossos filhos.”

Nota: Texto adaptado

de Márcio Berenguer e declarações de Joaquim Sousa

 

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