Opinião: As horas incertas da Comissão Europeia

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Havendo um mercado comum, com livre circulação de pessoas, bens, serviços e capitais, e com políticas comuns de comércio, para além de outras, quase todos os Estados-membros da União Europeia (UE) usam o mesmo fuso horário, independentemente da longitude de cada país. Mas Portugal tem uma hora de diferença quanto a Espanha e ao centro da Europa, apesar de, após a adesão à Comunidade Económica Europeia, hoje UE, um governo ter alterado a hora oficial, até o governo seguinte nos ter voltado a afastar dos horários da maior parte dos nossos parceiros.

Para ajustar a luz solar às longitudes dos países, há dois horários (verão e inverno), mas como mais de quatro quintos dos europeus disseram não querer mudar de hora duas vezes ao ano, a Comissão Europeia vai propor um horário único. As contestações atuais, seja as que invocam razões de saúde, seja por as criancinhas terem de se levantar e rumar às escolinhas sem haver luz natural, e muitas outras, não surpreendem, pois bastará recordar o que nos aconteceu quando passámos a seguir os horários que, hoje em dia, regulam a quase totalidade dos países da UE.

Mas se a reversão de uma medida que era positiva para a nossa competitividade e poupança de energia (ao alinhar o país com o horário dos principais parceiros comerciais) foi populista, esta última decisão de Juncker – de invocar o princípio de subsidiariedade, para cada país decidir sobre se seguirá, ao longo do ano, o horário de inverno ou o de verão -, parece ter esquecido as vantagens de haver harmonização horária para as comunicações entre organizações, ao longo da UE. Terá a decisão derivado de um dos seus falados desequilíbrios, devidos a uma já avançada idade, ou de alguma indisposição física momentânea, daquelas que toldam os espíritos? Se foi, não será grave, apenas mais um dos sinais de que tudo continua bem, e exatamente na mesma!

Mas está na hora da Comissão Europeia passar das palavras aos atos – entre outros motivos, para atacar as causas reais de haver tantos refugiados que fogem de guerras, de ditaduras e da fome, saber opor-se às “trapalhices de Trump”, e defender a Europa perante abusos dos grandes blocos militares e políticos -, em vez de discutir horas a desoras, para depois tomar uma “não decisão” que tem tudo para complicar, ainda mais, a vida de quem vive, e negoceia, no espaço europeu.

Nestes dias de canícula de fim do estio, em que tantas notícias raiam o ridículo político, dá para ver que a maestria capital de muitos líderes, não só dos de cá, mas de todo o lado, é dominarem a arte de nunca se comprometerem, para não prejudicarem as suas ambições políticas. Atuando a UE através de instituições supranacionais, que são independentes, mas que negoceiam com os Estados-membros as decisões intergovernamentais, a Comissão Europeia devia ter agido de modo a promover a maior convergência possível entre os horários que iremos seguir no futuro.

E atendendo ao risco de passar a haver uns países a terem horários de verão, e outros os de inverno, a Comissão Europeia mostra de novo que não quer “cortar a direito”, talvez por os seus dirigentes máximos pensarem sempre demais nas próximas eleições europeias, que permitem salários e mordomias imorais, e pensões milionárias, pagas pelos orçamentos comunitários…

Numa UE que se vem afirmando positivamente a nível económico, mas a que tem faltado coesão política, há medidas comuns que, pelas vantagens que trazem para o aprofundamento das relações humanas, empresariais e institucionais, devem ser tomadas por quem tem o poder, e o dever democrático, de evitar que haja forças de bloqueio com mais poder do que têm os que querem tornar a economia da UE mais competitiva. Pelo que o que se passa quanto aos horários, é mais que um simples desencontro de ideias entre quem constrói a história da União, e os que andam a reboque das inúmeras histórias que qualquer proposta provoca, a toda a hora, na UE.

 

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