Cristina Branco abre festival Correntes de um só Rio em Coimbra

Posted by

De regresso a Coimbra, onde tem trazido sempre a música com que se tem afirmado, em Portugal e por essa Europa, numa espécie de revolução íntima mas eloquente do fado, Cristina Branco abre, esta noite, no Convento São Francisco, o festival Correntes de um só Rio.

“Branco” – o mais recente trabalho da cantora, lançado em fevereiro de 2018 e amplamente reconhecido pela crítica –, dá assim início a um festival cuja programação tem o objetivo de evocar o fado e a canção de Coimbra. E nada de paradoxal nisso, pois, como por cá se tem feito, também a cantora que divide a sua vida “entre Lisboa e Amesterdão” revela os “autores de hoje e as diferentes sonoridades da música portuguesa”.

Voz, poesia e música. Parafraseando Torga, esta tem sido uma espécie de “tríade bendita” a acompanhar e, de alguma forma, a enquadrar rigorosamente toda a obra da cantora. Esta é também a tríade que melhor define “fado” e “canção” de Coimbra, motivos maiores do festival Correntes de um só Rio, que “Branco”, em concerto, abre esta sexta-feira.

E é de encontros, felizes, que estamos a falar neste seu regresso a Coimbra. Até porque, assegura ao DIÁRIO AS BEIRAS, “quando falamos de música, estamos sempre a falar de encontros felizes”.

Cristina Branco explica: “Tento sempre encontrar pessoas dentro da minha música e pessoas que conduzo até ela. Que sentido teriam estes anos todos à procura do caminho, literalmente à procura de mim, se não fosse para me pacificar nos braços desse encontro? Tudo isto para lhe dizer que apesar de o ponto onde nasce o rio não dizer tudo sobre ele, o rio se encontra com tantas águas até chegar à foz, que do caminho já só guarda o nome e a sua essência. Boa parte do seu caudal vem de outras paragens e conta muitas histórias diferentes”.

Por isso, confessa, quando viu o título do festival – Correntes de um só Rio – não se assustou. E avança a razão: “Eu sou parte desse rio, como outros antes ou depois de mim. Temos uma essência em comum, o Fado. À foz irá desaguar a música, o denominador comum desta conversa e deste festival que eu tenho a honra de inaugurar”.

Depois de ter (re)visitado alguns do “seus” autores – e lá está o magnífico “Abril” e, claro Zeca Afonso, que trouxe a Coimbra há mais de uma década – e de, com o disco “Menina”, se ter aventurado em novas abordagens e novos compositores, chegou agora o já muito celebrado “Branco”, sobre o qual disse ser o disco da sua “liberdade”.

“Liberdade” que Cristina Branco explica assim: “É a liberdade de construir um universo musical muito próprio, feito à minha medida. É a liberdade de não deixar entrar no meu universo pressões tipo a idade ou a maternidade, que são o tipo de pressões vagamente veladas mas profundamente sexistas. É dizer que eu sou igual a todos e diferente na minha singularidade e que isso é normal, esse é o meu novo normal e é estupendo, porque bastou-me afinal ser eu para chegar à minha liberdade”.

Quanto ao concerto – que “traz gente dentro”, porque, assegura, “não sou só eu, no fundo, dou voz a muita gente que vai desfilar em forma de texto e música, entre nós músicos e o público que nos quiser ouvir” –, promete “música sem preconceito, sentida e tocada até ao âmago”. A música que, assume a cantora, “gostamos de fazer e como nós nos gostamos de dar e isso tem um preço elevado que nós, eu, o Bernardo Moreira, o Bernardo Couto e o Luís Figueiredo pagamos alegremente. Tudo para sermos livres!”.

E como é que Cristina Branco, a mulher e a artista, olha para um mundo que, por tantas razões e em tão grandes evidências, parece ter perdido o norte?

“É um grande desafio reconhecer que o mundo está a encolher e que pessoas de diferentes religiões e culturas terão de aprender a viver umas com as outras. Enquanto todo esse preconceito existir (e o tempo será imenso até que reconheçamos) não será fácil progredir”, reconhece a cantora.

Assumindo-se “um passageiro silencioso desde mundo de loucos”, não hesita na resposta necessária: “Tento dar o meu contributo onde sei que ele fará sentido, não me ponho em bicos de pés e vou onde me chamarem, luto por causas que acho justas e ergo-me perante a injustiça, como tantos aliás. Espero apenas que este aparente pouco (que é tão pouco realmente) se transforme num leve bater de asas de borboleta e se reflita do outro lado do planeta como uma brisa de mudança, a bem do futuro da humanidade”.

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.