Opinião: Um verdadeiro encorning

Posted by

Abrenúncio! Esta semana uma senhora inglesa, de férias em Espanha, declarou-se farta dos nuestros hermanos. Eu cá gosto de espanhóis, especialmente em Espanha, ao contrário da dita senhora inglesa que não gostou das férias porque havia por lá muitos espanhóis.

É óbvio que a senhora está cheiinha de razão, pois, embora a mim me aborreçam mais os portugueses que por aí veraneiam, é verdade que em Espanha tenho encontrado sempre imensos espanhóis. Ora, como disse a dita senhora, eles fazem campanhas para atrair os turistas britânicos, alugam-lhes rooms, servem-lhes fish and chips em pubs típicos, põem tudo ao jeitinho inglês, e, no final, obrigam-nos a conviver com locais!? Então, já não pode um ‘come on’ andar na boa-vai-ela sem ouvir umas baboseiras na língua da fiesta? Não bastava obrigarem-nos a conduzir na faixa da direita?

Não é bonito, não, tratarem assim as visitas… aprendam connosco, usted!

Nós, por cá, há muito que decretámos saldos para turistas e até lhes fazemos umas promoções extra se quiserem por cá ficar mais tempo. Deleitamo-nos com o McNamara, a Madonna e, muito, muito, com a Bellucci (ou melhor, a Malena – vou até aproveitar as férias para rever o filme e voltar a rir com o chichi do jovem Renato na carteira da velha invejosa).

Entretanto, ajustámos as cidades aos seus gostos sofisticados, acabámos com o comércio tradicional (à excepção de umas lojitas vintage, com um escaparate decapé de latas de conserva e galos de Barcelos), afastámos os tugas sem patine dos bairros mais antigos, decorámos as tascas com andorinhas de cerâmica e até escrevemos as ementas em inglês.

Como qualquer bom anfitrião. E no Verão até vamos de férias para não enfadarmos os turistas com a lengalenga tuga. Eu cá vou para Espanha, só para apurar melhor as queixas da ‘bifa’. Passo em Paredes de Coura para ouvir os Arcade Fire, toco guitarra e durmo todo o dia (“I play guitar/And sleep all day/My mind is a freeway”), volto a tempo de Vilar de Mouros para ouvir os Crystal Fighters de novo já que disse que voltaria um dia (“Remember how I said I’d come someday baby?/How I said I’d come around to see you one day?”) e continuo de férias por aí a ouvir estes hispano-britânicos (só para não ofender os turistas), de livro na mão e ipod no bolso, porque “O tempo é curto”.

E até mesmo quem já estiver a trabalhar, em nome da Liberdade do Pessoa (“Ai que prazer/Não cumprir um dever”), pode faltar e alegar motivos profissionais. Deve explicar tudo ao patrão, bem se vê: “Olhe, passa-se isto, assim, assim, de maneiras que eu amanhã não posso vir trabalhar. Sendo mais específico, eu amanhã não posso vir ao emprego por motivos profissionais… é que não me apetece vir trabalhar”. Dos Gato Fedorento, pois claro (ou Smelly Cat, em honra dos turistas americanos apreciadores dos dotes vocais da amiga Phoebe).

Deixemos então Portugal para os turistas que nos escolheram. Sem qualquer política integrada de turismo e desenvolvimento territorial, pusemo-nos em bicos de pés, de pescoço esticado e braço levantado, a gritar “Escolhe-me a mim, escolhe-me a mim” como o burro do Shrek e, à pala da crise internacional, vamos sendo escolhidos, sim (porque não soubemos escolher nós). E queira Deus que um destes dias não percebamos que fomos enxotados daqui para fora por aqueles que gostam muito do nosso país, mas talvez não gostem tanto de nós. E aí, o país dos 3 F perceberá que eles é que nos cantaram um fadinho e os elogios eram só para inglês ver, afinal. Um verdadeiro encorning!

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.