Opinião – Sobre o que hei-de fazer /Sobre o que hei-de escrever

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Neste mundo em desespero (não será mesmo em agonia?!…), se houver uma calamidade física, química ou biológica, desencadeada pelo homem ou pela natureza – não será mesmo o que está a acontecer? – onde me poderei abrigar ou esconder? Não serei dos poucos em que a vida dos outros tem mais valor para mim do que a minha própria vida? No apagar da vida, mas com tanto apego à vida, vivo em desespero, preocupado não com a minha saúde, mas com a saúde dos outros e a sua vida.

No meu tempo de estudante e médico, era considerada urgência para internamento o tratar da doença e o ensino e investigação, nem que o doente tivesse que ficar acamado no chão. Hoje, o ensino e investigação estão proscritos. Os alunos de Medicina eram acarinhados no Hospital e hoje são quase mal vistos! Donde o meu desespero…

Fui à Guiné acompanhando-me o cirurgião plástico Celso Cruzeiro e o Miguel Alexandre Silva (associação Union Fraternelle / Suisse), de uma eficácia e humanismo surpreendente. Entre os doentes operados foi intervencionado um com elefantíase multi-nodular, cuja causa não era a filariose, ao contrário dos outros casos de elefantíase. Fungo? Estava indicado fazer a amputação, mas o doente disse de pronto “Prefiro morrer!” e o Miguel Alexandre prontificou-se a suportar o custo da prótese que, sendo a amputação apenas da perna, lhe permitiria caminhar normalmente e até apressar o passo ou mesmo correr. Na operação, utilizou-se o método para a elefantíase ocasionada pela filariose. Na segunda missão, o doente estava melhorado, mas reapareceram os nódulos. Há-que esclarecer a causa. Não se pode trazer o material colhido na biópsia. Só se o doente vier para Portugal. Faz-se um apelo ao hospital… Esperanças de início que depois foram goradas…

Vamos ao nosso desespero e angústia. Não temos dinheiro para o internar numa clínica. Interrogamos, então, para que serve a Comunidade dos Povos da Língua Portuguesa?
Os políticos encantam-nos, mas será que querem conhecer a realidade? Será que não ficam com remorsos do que está a acontecer?

Se lá tivesse sido operado, na Guiné-Bissau, este jovem teria de pagar a médicos, internamento,… antes de ser internado. E não há médicos habilitados a fazê-lo…

Tínhamos intenção de internar mais sete crianças e dois adultos com patologia não tumoral que desconhecia e que continuarei a desconhecer…

Quem nos acode? A Igreja faz talvez mais do que pode… Será que os senhores políticos desconhecem o que está a acontecer? Espero que os políticos venham ajudar a resolver…

Norberto Canha escreve semanalmente

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