Opinião – Não matarás

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Andam os municípios inquietos com o cumprimento da Lei que proíbe o abate de animais nos canis municipais. A Lei entra em vigor no final de Setembro e erguem-se vozes a pedir prorrogações, não das vidas, mas da licença para lhes pôr termo.

Tudo isto é sinal terrível de um país atrasado, onde os serviços que lidam com animais foram concebidos para livrar os humanos desses outros seres, por isso mesmo integrados nas unidades orgânicas que tratam do lixo, compostos por trabalhadores que foram sempre desvalorizados ao longo do seu percurso profissional.

O poder autárquico, nos 44 anos de democracia, enfrentou desafios difíceis, instalou milhares de quilómetros de redes de água e esgotos, construiu centenas de escolas, centros culturais e espaços verdes, habitações, estradas, estádios de futebol, ruas e praças. MAS tem medo de não estar preparado para este novo desafio cultural e cívico que é tratar dos animais. E porque tem medo, confunde e mistifica tudo: diz que precisa de tempo para aumentar os canis, como se a questão fosse de espaço disponível. Sejamos claros, nenhum espaço será suficiente. Diz que vai aumentar as adoções, como se o número de adotantes se multiplicasse na mesma proporção do número de animais.

A resposta ao desafio está estudada, foi aplicada com êxito em muitos países e está testada no contexto nacional por dezenas de associações e milhares de voluntários:

1. Esterilização dos animais de rua, feita com rigor e de forma sistemática, em cada Freguesia. Devolução aos seus locais.

2. Esterilização, a preço bonificado, dos animais cujos donos não tenham posses.

3. Retirada para adoção dos animais encontrados na rua, mas que sejam dóceis ou de tenra idade.

4. Trabalho com as forças de segurança para melhorar a punição do abandono e maus tratos.

5. Criação de serviços municipais de socorro animal, encaminhando para clínicas e hospitais os casos que exijam tratamento mais especializado.

Os cidadãos são crescentemente exigentes de respostas nesta área. Portanto, convém que os titulares dos cargos públicos acompanhem essa elevação da exigência e não façam de conta que não é com eles.

Participo amanhã num debate sobre este tema, em Leiria. Adoraria mostrar o exemplo de Coimbra como uma cidade que soube estar na primeira linha da promoção do bem-estar animal. Infelizmente, por respeito à verdade, não posso dizê-lo. A CMC desperdiçou 5 anos, malbaratou o entusiasmo e as energias de associações e voluntários que davam o exemplo e estavam disponíveis para dar suporte à mudança. As recentes declarações do Vereador sobre um canil que, em cada dia que passa, se ocupa de 2 novos animais são patéticas, numa cidade que tem mais de 30 000 animais na rua.

Os cidadãos que pedem ajuda para esterilizar ou para socorrer animais feridos ou perdidos não devem calar-se perante a resposta ronceira: Não podemos. Estamos cheios. Pagamos esses serviços. Devemos exigir políticas eficientes e modernas.

Não matarás. Nem deixarás morrer os que puderes salvar.

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