Opinião: Do certo ao incerto, notas soltas sobre sinais inquietantes

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É certo que a economia nacional cresce há quase um lustro, mas o crescimento é tímido demais, e o confronto direto com as restantes pequenas economias da União Europeia, que são nossas concorrentes, mostra que o mesmo é bastante inferior aos de muitas delas, o que compromete a atratividade do país na captação de investimento estrangeiro. Ora, como a poupança interna não tem crescido, e o crédito bancário voltou a acelerar para a compra de imobiliário e de viaturas usadas, e não para financiar investimentos produtivos, o futuro do país é cada vez mais incerto.
Contrariando a tendência dos últimos anos, o turismo perdeu fulgor, entre outras razões por ter havido alguma acalmia terrorista em países do médio oriente e de outras regiões mais distantes, pelo que a tradicional bonança lusitana – chamariz eficaz para aliciar forasteiros -, ao perder importância relativa, mostrou a menor competitividade económica do nosso país relativamente a destinos turísticos com culturas diferentes das ocidentais, e tão exóticas que fascinam turistas.
Mas há outros sinais muito mais inquietantes, como a célere subida do preço do imobiliário, nomeadamente em Lisboa e Porto, mas também ao longo do país mais litoral. E como o crédito concedido, quer para habitação própria quer para o alojamento local (AL), cresce também – e sem que tenha por base a garantia de empregos bem remunerados, no caso da habitação própria, e de uma continuada procura turística que sustente tantos novos AL´s -, o país corre o risco de uma outra bolha imobiliária que, se acontecer, debilitará ainda mais a frágil economia privada.
Entretanto, o desemprego vem decrescendo de forma muito notória, o que é de saudar, mas com moderação, por mais de um em cada cinco jovens continuarem desempregados, e por muitos licenciados e doutorados não encontrarem empregos adequados às suas elevadas qualificações! É que muitos dos empregos que ultimamente têm sido criados são sazonais, pouco qualificados e mal remunerados, pelo que não há razões, para além de oportunismo político, para que quem tem a obrigação de saber melhor do que ninguém, qual a situação real deste país, teça loas ao que, afinal, são pálidos reflexos do mais acentuado desenvolvimento das economias europeias.
Assim como o primeiro-ministro não devia ter embandeirado em arco, como fez em agosto, por não terem havido mortos nos incêndios florestais que lavraram em Monchique, e que destruíram mais de 27.000 hectares, deixando um rastro de miséria e descrédito na operacionalidade dos meios de intervenção e combate a tais fogos, o que conduziu certos governantes estrangeiros a desaconselharem os seus habitantes a passarem férias nas estâncias turísticas do sul de Portugal.
E se os estudantes candidatos ao ensino superior são hoje menos do que têm sido no passado – o que evidencia que estamos a comprometer o nosso futuro -, e se o povo sofre mais com tantas greves na saúde e na educação, e com a falta de investimento que compromete o funcionamento regular de infra-estruturas essenciais, porque desvaloriza tais temas quem nos governa, e porque quem se opõe não diz o que faria de diferente? Pelo que um efémero estadista irá criar uma nova força política; mas terá o ideólogo duma futura “aliança”, a energia precisa para que Costa & Ca. simplifiquem leis e regulamentos, e diminuam custos de contexto, para dinamizar a economia?
Só que estes, e muitos outros sinais, parecem nada significar para quem crê cegamente em quem nos guia. Mas, se as raríssimas vozes críticas não forem escutadas pelos governantes, em breve as nuvens da desesperança tomarão o lugar do refulgente sol de verão. Será então o tempo de as cigarras que tanto cantam no estio, pedirem às formigas novo empréstimo duns grãos de cereais.

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