Opinião: Aliança e casamento

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Assisti com interesse genuíno à queda de algo que era, de há muito a esta parte, uma espada de Dâmocles sobre as lideranças do PSD: a saída de Pedro Santana Lopes e a criação de um novo partido.

Não teorizarei sobre os seus pressupostos ideológicos, mas antevejo uma sábia ocupação da área liberal da nossa política, espaço que Pedro Passos Coelho dominava, mas, como quase sempre acontece com mantas curtas (ou, como no caso do PSD, em processo de ruptura), destapando o pé de apoio na área social-democrata.

Ainda à guisa de interlúdio, bem, como é hábito, esteve Pedro Duarte, que entendeu a orfandade de parte do partido, e a franca probabilidade de outros candidatos se perfilarem com o fito de administrar o orfanato santanista, imaginando eu que nem todos ou sequer a maioria dos apoiantes mais recentes (com novidades que me fizeram rir a bandeiras despregadas) acompanhará Santana Lopes nesta viagem.

Voltando ao tema, e sem qualquer arremedo de psicanálise que ajudaria nos motivos mais pessoais deste novo cisma do nosso Ocidente partidário, creio que a Aliança pode, efectivamente, dar guarida a vastos sectores sociais que defendem uma diminuição do papel do Estado. A título pessoal creio ser seguro dizer que o problema é mais de eficiência do que de dimensão, já que estes anos de “emigração” me fizeram ganhar ainda mais estima pelos nossos sistemas de educação e de saúde. Ou seja; cá continuo reformista, com aroma de social-democrata, embora reconhecendo a validade de uma opinião liberal, que tem andado sem palco no nosso “show” político.

De uma coisa estou certo, foi o PSD que permitiu esta cisão, desde logo, decapitando os chamados “barões” que, afinal de contas, eram um grupo de personalidades que tinham como denominador comum o facto de terem, regra geral, uma carreira profissional e/ou académica que, ademais da “auctoritas”, lhes dava um desprendimento capaz de cimentar numa mesma agremiação partidária sensibilidades muito distintas.

O consenso só está alcance dos tolerantes… E a tolerância só está ao alcance dos cultos… E a cultura só está ao alcance dos espíritos livres… E os espíritos livres só combinam com pessoas independentes no seu percurso de vida. Dito de outra forma, quando a maioria da vida partidária passou a ser controlada pelos oligarcas dos votos (mea culpa, pois defendi a eleição directa do líder, e a bala fez ricochete) a tolerância, o debate e o eclectismo nato do PSD saíram algo estropiados..

O velho PSD teria sabido conservar Santana dentro de portas, como sempre fez. Claro que pode ser que o horizonte eleitoral seja travado por uma experiência anterior que não correu bem. Contudo, a mais da curta memória eleitoral, Santana poderá acomodar a desilusão e o protesto da Direita. E se chegar aos 10% ou perto? E se Assunção Cristas se der mal e Portas voltar como salvador, guindando o CDS a 20%, outra vez? E se estes 30% se entenderem, juntando à Aliança um matrimónio pós-eleitoral?

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