Opinião: PAN fascistas

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Amanhã vai ser “uma tourada” no Parlamento, quando o PAN levar a votação a abolição das corridas de touro em Portugal. Já tudo serve de fundamento, contradições são elevadas a inteligência rara, referências históricas são escritas à vontade do freguês. Os touros não merecem tão fraca representação.

Só a título de exemplo, diz-nos o PAN que a defesa das minorias, no caso das touradas, não se aplica porque defender que estas práticas fazem parte da identidade nacional é pretender que uma minoria da população que assiste a corridas de touros seja considerada mais «portuguesa» do que a grande maioria que não se revê neste tipo de espectáculos. É no mínimo temerário escrever isto num país que tem 44 municípios com actividade taurina.

Aparte a argumentação apresentada, materializada no texto legal motivador do diploma que vai a votos, não são de hoje as iniciativas contra as touradas, tal como são antigas as medidas de protecção dos animais, que não nasceram com o PAN. Uma das mais emblemáticas é de 1928, ano em que se proibiu em todo o território da República Portuguesa as touradas com touros de morte.

Actualmente, encontra-se em vigor o Regulamento do Espectáculo Tauromáquico, aprovado pelo DL n.º 89/2014, de 11 de Junho, em cujo preâmbulo se afirma que «a tauromaquia é, nas suas diversas manifestações, parte integrante do património da cultura popular portuguesa». Também o DL n.º 23/2014, de 14 de Fevereiro, que aprova o regime de funcionamento dos espectáculos de natureza artística e de instalação e fiscalização dos recintos fixos destinados à sua realização, prevê que a «Tauromaquia se integra no conceito de uma actividade artística».

E só mesmo os ainda muito novos de idade não se recordam da Lei n.º 19/2002, de 31 de Julho, que veio criar um reconhecimento expresso da licitude da realização de touradas e autorizar, a título excepcional, «a realização de qualquer espectáculo com touros de morte (…) no caso em que sejam de atender tradições locais que se tenham mantido de forma ininterrupta, pelo menos, nos 50 anos anteriores à entrada em vigor do presente diploma, como expressão de cultura popular, nos dias em que o evento histórico se realize». Tudo em respeito da Constituição, que nos diz que “Todos têm o direito à criação e fruição cultural, bem como o dever de preservar, defender e valorizar o património cultural.”

Nesta iniciativa do PAN a tourada tornou-se o menos importante, pois o que me ofende verdadeiramente é ler num texto que motiva uma Lei que “A identidade de um povo cria-se a partir do que é pertença comum e não daquilo que nos divide, pelo que forçar a identidade tauromáquica à população portuguesa é ofensivo e contraproducente para uma desejada unidade nacional”. Expressões “todos diferentes, todos iguais” ou “é proibido proibir”, para o PAN e outros iguais só se aplicam dentro da unidade que eles próprios concebem, uma que pretendem impor a uma diversidade que falsamente dizem defender. É mesmo caso para dizer: cambada de fascistas!

2 Comments

  1. Iōanna Nikolaïdes says:

    Sr. Paulo Almeida,
    Encontra alegações fortes e fracas a propósito da prática da tourada em vários textos, uns escritos por investigadores portugueses, outros, escritos por investigadores estrangeiros:

    1)Ética com Razões, de Pedro Galvão, FFMS, pequeno grande livro editado em Janeiro de 2015;
    2)The Ethics of Killing, de Jeff McMahan, edição da Oxford University Press, 2002.

    Reiteramos haver razões suficientemente fortes para concluir que a prática da tourada seja inaceitável numa sociedade em que se considere de modo sério o bem-estar dos animais.
    Os argumentos de PAN serão tão fracos como é fraco assumir que um partido político que toma a designação de CDS–PP (Centro Democrático Social – Partido Popular), e que se assume como um partido político português conservador, possa algum dia vir a traduzir os valores de TODOS os portugueses, em particular os agnósticos, ateus, progressistas, et al. Repare que, um tal partido político português, conservador e inspirado pela democracia cristã, ainda que considerando-se representativo dos interesses dos portugueses, deixaria sempre uma larga fatia de bons e honestos cidadãos de fora. Seria no mínimo estranho, que tal partido político se arrogasse à pretensão de que quem partilha da fé cristã é considerado mais e melhor português do que aqueles que não se revêm na fé cristã. A fé cristã ou outra fé qualquer. Apenas estamos a servir-nos do exemplo para efeitos de argumentação. Será no mínimo temerário, considerar que tal partido político possa algum dia representar todo o povo que habita num determinado território geográfico. Como será de igual modo temerário, assumir que todos os comunistas são agnósticos ou ateus.
    Enquanto não considerarmos certos valores, certas práticas, sejam elas tradicionais ou não, de uma perspectiva ética séria, estaremos todos a perder o nosso tempo e a perturbar inutilmente a nossa já débil tranquilidade.
    O meu Mestre Escultor, já ido deste Mundo faz muito tempo, e quem me terá deveras ensinado a desenhar, dizia assim: “You expect a man who is guiding you through the mountains to save your energy and tell you the best way, but you can’t get any farther in that mountain that you can and will walk”.
    Muitos poderão guiá-lo a si e a outros no respeito pelo bem-estar dos animais, mas ninguém poderá forçá-lo a cuidar disso, tanto quanto o Sr. Paulo Almeida cuida do bem-estar de si próprio e dos seus da mesma espécie. O Sr. Paulo Almeida não comungará decerto de certos valores do cristão Giovanni di Pietro di Bernardone, dito também Francesco, quem duvidamos, pudesse retirar algum tipo de prazer de práticas como as touradas e outras afins.

    Não somos de nenhum partido.
    Não somos PAN. Quando muito, SYRINX. 🙂


    Tchauzinho.

  2. Poortugues says:

    Em primeiro lugar, se ainda há quem goste e vá às touradas, então que se mantenham as mesmas. Quem não gosta, que não vá. No entanto, espero que este princípio também se aplique aos touros e que também eles sejam questionados sobre se querem ou não ver as farpas espetadas no lombo e só sejam toureados os que concordarem.

    Depois, e mais a sério, como é possível, com a legislação que temos hoje em dia sobre aos maus tratos a animais de companhia, continuemos completamente a ignorar o que se passa com os outros, os que não são "de companhia"?

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