Opinião: O que é preciso é ter “connects”!

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A transparência, ou a sua ausência, é talvez dos nossos maiores problemas. De facto, é numa cultura de falta de transparência que floresce o amiguismo, o hábito de resolver tudo dando uma “palavrinha” à pessoa certa, o poder de organizações transversais, a ideia de que há pessoas e instituições que não têm de se justificar, a falta de clareza na tomada de posições, o desrespeito pelo dinheiro dos contribuintes, a adoção de “critérios” que têm em mira o favorecimento de terceiros e a correlação de tudo isso com a circunstância pessoal de cada um.

Em Portugal não há cultura de transparência, o que, aliado a uma justiça muito frágil, burocrática e onerosa, transforma o nosso sistema político num simulacro grosseiro de democracia. Para uns, tudo corre sem grandes sobressaltos. Para os outros, fica a lei. E isso torna este país numa organização anedótica, que conseguiu ir à falência em 2011, conseguiu assistir à maior fraude de sempre no sistema financeiro e conseguiu gastar mais de 17 mil milhões de euros dos contribuintes no sistema bancário, sem colocar ninguém na cadeia, nem responsabilizar quem quer que seja.

Para além disso, esta semana, a CGD enviou para o MP a auditoria aos seus atos de gestão, mas recusou enviar essa auditoria à Comissão Parlamentar de Orçamento e Finanças, justificando que a “informação relativa a clientes da instituição está abrangido pelo dever de sigilo bancário”, pelo que “independentemente da garantia de que a Comissão asseguraria as condições de reserva que eventualmente se mostrem legalmente necessárias está a Caixa Geral de Depósitos impedida de fornecer o relatório em causa, sob pena de violação do dever de segredo a que está legalmente vinculada”.

Tudo isto num banco público que recorreu a dinheiro dos contribuintes para resolver problemas de má-gestão, imparidades, créditos muito duvidosos que correram mal, etc. O montante da recente capitalização da CGD é bem a imagem do descalabro que foram os anos desta instituição desde, pelo menos, o ano 2000.

Existisse uma cultura de transparência em Portugal, e nenhum destes problemas se colocava, pois não passaria pela cabeça de ninguém que um banco que recorreu ao dinheiro dos contribuintes não tivesse que explicar, cêntimo por cêntimo, como foi aplicado esse dinheiro. Aliás, quando questionados sobre este assunto, Horta Osório, Faria de Oliveira, Teixeira dos Santos e Carlos Costa têm opiniões radicalmente diferentes. Senão veja-se:

Horta Osório (Lloyds Bank, banqueiro com carreira de enorme sucesso, tendo passado pelo Citibank e Santander, entre outros, antes do Lloyds): “Parece-me de elementar justiça que os portugueses saibam como é que esse dinheiro foi aplicado e acho muito bem que o parlamento esteja a legislar no sentido de os bancos que tiveram ajudas públicas terem de ser obrigados a divulgar a lista dos maiores devedores para os portugueses ficarem com clareza a par de como esse dinheiro foi empregue”.
Faria de Oliveira (Associação Portuguesa de Bancos, ex-responsável da CGD – de 2008 a 2010 ) – “a divulgação da lista dos grandes devedores de bancos que receberam ajudas do Estado vai “destruir” a confiança nas instituições financeiras”.

Teixeira dos Santos (ex-ministro das finanças/bancarrota de Sócrates e o homem que falhou em mais de 1000% a estimativa de custo para os contribuintes da nacionalização do BPN, CEO do banco que comprou o BPN por 40 milhões de euros ficando com toda a sua rede nacional): “Acho que não faz sentido algum. Acho que o revelar a relação comercial que existe entre um banco e um cliente, que deve ser uma relação de sigilo, é abrir um precedente que pode minar muito a confiança que qualquer agente pode ter no sistema bancário”.

Carlos Costa (Governador do Banco de Portugal que nunca viu nada do que se estava a passar no BES, no Banif e em tantos outros bancos): … viola o dever de “sigilo profissional que vincula todas as pessoas que trabalham ou tenham trabalhado para as autoridades competentes de supervisão”, um dever que é regulado pelo Banco Central Europeu e que está acautelado numa diretiva europeia relativa à divulgação de informações confidenciais de instituições de crédito.

Se não tem opinião formada sobre este assunto, em qual destas personalidades confia mais para o ajudar a formar opinião?

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