Opinião: Estórias de verão – Cistercienses, Cluniacenses, Crúzios e Santiaguistas

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Para a fundação de um estado basta reunir as condições favoráveis. Já uma nação, não se funda! Lentamente, com avanços e recuos, vai-se formando em redor de pessoas com uma identidade comum. A nossa nação formou-se por volta do séc. XV, ou até mais tarde e, foram muitos os determinantes deste presente. A natureza dos acontecimentos não os obriga a serem todos factos históricos, uns são objetivos, outros serão subjetivos, incorporam a dedução e análise sobre estes citados conhecimentos. Nessa perspetiva, o dia 25 de julho é o dia de São Tiago, da Batalha de Ourique, onde o D. Afonso Henriques se autoproclama Rei dos Portugueses e, por coincidência dos factos, o dia do seu nascimento, há precisamente 909 anos.
Em plena Idade Média, há cerca de mil anos, Coimbra era habitada por correntes monásticas que influenciavam a formação do território. A cidade medieval acolhia peregrinos e caminheiros, cruzados e mercenários, trabalhadores e ladrões, vilões e gente de paz. O afluxo de forasteiros obrigava a cidade a crescer sob a proteção de ordens religiosas: Mosteiro de Celas – Ordem de Cister, Santa Justa – Ordem de Cluny, Santa Cruz – Ordem de Santa Cruz e Igreja de Santiago – Ordem de Santiago, esta última fazendo parte de uma rede próxima de igrejas jacobeias que, entre o que cobravam e ofereciam, sobrava para os que seguiam a rota do Caminho de Santiago. Os peregrinos vindos da portagem, depois da Porta de Almedina, sem entrarem na ‘Cidade Muralhada’, encontravam ali o seu porto de abrigo.
Ora, a veneração ao Apóstolo S. Tiago e a promoção do Santuário de Compostela surgiram da intercedência do Santo nas conquistas dos cristãos. A igreja de Coimbra foi erguida no século XII, em louvor dos Espatários (Cavaleiros de Santiago) e da preciosa ajuda de D. Fernando I (o Magno) na conquista da cidade em 1064. Neste contexto, não se pode ignorar a situação ‘geo-eclesial’ e a disputa entre Compostela e Braga. A primeira detinha dioceses como as de Coimbra e Lisboa. A segunda, as de Orense e Tui. Aliás, é desta disputa acérrima que resulta a ‘emancipação’ de D. Afonso Henriques, que toma o partido de Braga, muito por influência da Ordem de Cluny que o revolta contra o Conde de Trava, aliado da sua mãe, D. Teresa da Leão. No que concerne à igreja de Coimbra, só em 1183, na presença de D. Afonso Henriques, é que o arcebispo compostolense abdicou dos seus direitos a favor da Sé de Coimbra.
Imagine-se o episódio em que o Infante Regente Dom Pedro (Duque de Coimbra) e o seu grande amigo, D. Álvaro Vaz de Almada (um dos melhores cavaleiros da Europa e um dos Doze de Inglaterra, de um ato cavalheiresco descrito em ‘Os Lusíadas’), terão jurado, com as mãos sobre uma hóstia, não sobreviver um ao outro no esperado reencontro com o seu sobrinho, D. Afonso V. Poucos dias depois, na Batalha de Alfarrobeira, este ilustre cavaleiro de mil aventuras e glórias, com o título de Conde de Avranches e o grau de Cavaleiro da Ordem da Jarreteira atribuído pelo Rei Henrique VI (cujas armas figuram no exclusivíssimo St. George Hall, no Castelo de Windsor) ao saber da morte do ‘irmão de armas’ procurou a sua, gritando “Ó corpo, sinto que não podes mais e tu, minha alma, já tarda”.
Depois de um passado impressivo, a igreja de São Tiago foi cortada pela capela-mor para dar espaço à escura e estreitíssima Rua do Coruche (hoje Visconde da Luz), e chegou a ter edificada sobre ela uma habitação. Pouco restou da traça original da velha igreja românica, mas a cor de ouro da sua pedra calcária deixa imaginar o seu passado marcante na história da nação e de Coimbra.

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