Opinião: À Mesa com Portugal

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No que a frutas diz respeito, é caso para dizer que as conversas são como as cerejas. São muitas, de muitas variedades e distribuem-se ao longo do ano numa sazonalidade que nos é conveniente pois que se torna apetitosa e gulosa. Há lá melhor coisa do que apanhar uma barrigada de cerejas logo que estas aparecem à venda?

E ir à vinha e colher uns cachos com o cheiro a uvas quentes adocicadas pelo sol? E ir ao laranjal e sorver uma laranja sumarenta utilizando uma cana rachada na ponta para partir o galho? Hum… fresquinho… E os melões? Habituados aos que se vendem em Almeirim, designados de brancos pois que os “Verdes Riscados” quase estão em vias de extinção, nem conseguimos perceber que melões são aqueles, designados de Casca de Carvalho, que têm um sabor apimentado e que quando são abertos fazem um barulho estranho, dizem os de lá que bufam… A culpa é do gás carbónico que este melão gera no seu interior.

A fruta é uma dádiva da natureza e, como em tantas outras coisas, falta conhecimento. O melão Casca de Carvalho produzido, sobretudo, no Vale do Sousa, Vila Verde e Barcelos consegue surpreender. À primeira dentada parece até que o melão está demasiado maduro, pica na boca, estranha-se. Felizmente, que rapidamente, à terceira dentada, se entranha. Vendido a um preço muito para além do habitual, na mesa nortenha este melão é rei mostrando que o sabor é uma coisa estranha, admite regionalismos e depende muito da educação e da criação.

Sempre muito mais virados para o doce, como gostar daquele melão que parece que até tem pimenta? Talvez por isso seja tão fresco. Se tempo houvesse explicaria como, na sua produção, este melão é caprichoso e gosta muito de ser mimado. Daí o preço elevado, é que para ter um bom melão há que sofrer mesmo às piores horas do dia, virá-lo para que amadureça toda a sua polpa, fazer a capagem e retirar os ladrões, ajeitar-lhe uma cama com palha para que não esteja em contato com a terra húmida, regá-lo, mas com jeitinho e saber que água a mais compromete a qualidade, enfim, produzir melões Casca de Carvalho não é mesmo para todos.

Só para aqueles que sentem esta fruta como parte da família, da comunidade, da terra que os viu nascer e, por isso dão o melhor de si para criar bons exemplares, daqueles que nos fazem sorrir à primeira dentada. Já dizia o saudoso Professor Doutor António Barbosa de Melo “se quiseres obsequiar o teu melhor amigo com uma iguaria que nunca mais vai esquecer oferece-lhe um Melão Casca de Carvalho, mas se quiseres gozar na cara do teu pior inimigo oferece-lhe um Melão Casca de Carvalho”. Sabia este ilustre filho de Penafiel que quem quer produz um bom melão e que os outros produzem cabaças.

Porque quando está, literalmente, prestes a explodir com a pressão do gás carbónico é que este melão está no ponto para ser comido (triste sorte a daqueles que racham ainda na terra antes de amadurecerem), é difícil conseguir a sua conservação para além de 2 a 3 dias após a colheita. Por isso, ao contrário de outros, o melão Casca de Carvalho não chega ao Natal. Há, no entanto, registos de que antes alguns produtores conseguiam conservá-lo em sítios escuros e cobertos em palha. Mas, garanto-vos, é uma experiência imperdível, sobretudo, quando comido entre amigos do Vale do Sousa, de Vila Verde ou de Barcelos.

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