Opinião: Dê Ene

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Eu ia de metro até ao Marquês de Pombal. Durante a viagem observava os passageiros que liam o jornal e o folheavam humedecendo na ponta da língua o dedo que virava a página. Durante o tempo frio, junto ao quiosque ao cimo da Avenida da Liberdade, uma carripana com fogareiro crestava as castanhas que depois eram colocadas em canudos feitos com folhas das edições do dia anterior.

Subindo ao piso da redação do Diário de Notícias, os exemplares dos jornais que compunham a concorrência amontoavam-se em cima das mesas. Havia pilhas de papel no chão e também acomodadas em cadeiras. O repórter diplomático do jornal trabalhava na mesa em frente à minha, fumava cachimbo e chegava por volta das três da tarde com jornais internacionais que tirava da sua pasta castanha de couro gasto. Usava suspensórios que lhe seguravam as calças tom de caqui, impecavelmente engomadas.

Debatíamos o essencial. Eu era um recém-licenciado acabado de entrar no DN e só queria escrever e ver publicadas as minhas peças. Esfolava-me. Saía já depois da uma da manhã, quando o relógio mascava as desoras. Íamos jantar ao Snob, às vezes ao Dom Pedro V, ponto de encontro de gente da cultura, da política e do jornalismo. Foi ali que comecei. Cada jornalista defendia a sua redação e o seu jornal. Éramos rivais. Tal como outros órgãos esgrimiam os seus potenciais de verdade, nós ríamos e esclarecíamos o vigor do nosso título: “Não dê uma, Dê Éne”. Era pelas siglas que tratávamos o Diário de Notícias. Do alto da nossa virilidade inculpada, jurávamos códigos deontológicos, éticas intangíveis, honras às nossas sanhas e às incorruptíveis fúrias pela razão.

Durante os anos seguintes, assisti ao fecho de títulos. Com o tempo, os periódicos foram definhando, engolidos pela ascensão dos tabloides, ainda que na maioria dos casos estes viessem soprados por ventos efémeros, como se provou. Surgiram os jornais gratuitos distribuídos nas estações do metro. Depois generalizou-se a Internet, apareceram as notícias instantâneas e as redes sociais, e os jornais online, e muitos de nós já havíamos feito a travessia da encruzilhada do tempo, já não estávamos na mesma paragem do metro, já não íamos às castanhas ao cimo da avenida. Mas não há amor como o primeiro…

O DN, fundado em 1864, começou há dias uma nova vida. Julgo que não foi uma opção, mas uma contingência maquilhada. Os números são implacáveis: as vendas de jornais em papel, em todo o mundo, não param de cair. As vendas do DN desceram a fasquia dos dez mil exemplares. Por isso o diário decidiu abandonar o papel de segunda a sábado para passar a ter apenas uma edição impressa ao domingo, posicionando-se no online.

A escolha do domingo tem a ver com a convicção de que os jornais em papel já não são lidos durante a semana, ao passo que ao domingo, o prazer de ler pode ser mais longo. Esta edição é gratuita, só uma parte residual será paga. O que o DN está a fazer é o mesmo que aconteceu em outros títulos internacionais, como o Telegraph. Ou o caso mais sonante do posicionamento exclusivo no online, o The Independent. Por muito que nos custe admitir, se o público muda, os jornais e seus formatos também podem (e devem) mudar.

Mas como se sustentará o DN? Para já inovou-se, renovou-se, cortou nos custos do papel e nos da distribuição. Manteve os jornalistas. Contudo, precisa também de angariar publicidade. E leitores que estejam dispostos a pagar pelas suas notícias. Mas, poderá o público algum dia aceitar pagar pelo bom jornalismo?

As notícias precisam de tempo e de esclarecimento. O online é rapidez vertiginosa, cor, som e imagem, debitando coisas que só com tempo pode comprovar. Aprofunda pouco. Já o papel, é o avesso do online e julgo que tem à sua frente uma oportunidade de posicionamento gourmet, gastando tempo a contar estórias bem contadas. Espero que a nova vida do DN seja uma história bem contada. Só o tempo o dirá.

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