Viajando no deserto

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Viajando no interior deserto encontrei uma aldeia onde os habitantes reclamavam que os roubos fossem feitos sem violência. Tinham tido a experiência traumática de um assalto feito violência e como a solidão o permite só queriam que aquela não existisse. Não se queixavam como um moleiro em 1891-1892:

“Veio da terra, mailo seu moinho:
Lá faziam-no andar as águas do Mondego
Hoje, fazem-no andar as águas do Sena…
É negra a sua farinha!
Orai por ele! tende pena!
Pobre moleiro da Saudade… ( 1 )

Estavam esquecidos da recorrente e incansável máquina de fazer emigrantes que são os governos lusos que agora, tal como em 1891-1892, fazem sair de Portugal muitos portugueses. Admiram-se feitos “ingénuos” que o Interior não tenha gente e, consequentemente, não tenha quem apague os fogos e que o país arda sem parar.
Felizmente, este ano chove todos os dias e apesar disso o país continua a arder, como posso verificar quando o percorro e as notícias nos jornais logo o confirmam.
Estudei há três anos o ambiente social e científico que fez prolongar a crise da filoxera e concluí que tal resultava das falhas de governo a nível local e central na gestão da passagem do saber científico para a produção.
Persistem agora os sucessivos governos na criação de obstáculos à transferência do saber na sua sanha de poupar onde não deve. Persistem em não dar razão às reivindicações salariais e de carreira dos que podiam pelo trabalho inteligente resolver os nossos problemas de ineficiência. Queixam-se de não ter dinheiro para reposionar na carreira os professores que ainda teimam em ensinar. E já não têm tantos como há dez anos quando eram mais de cem mil. Agora para refutar a justiça que deve ser feita aos professores argumenta-se que os que abandonaram o ensino ficam de fora desta justiça que há muito tarda. De facto, vou-me cruzando aqui e acolá com gente feliz por ter saído de uma profissão mal paga e, pior ainda, sem perspetivas de progressão e estabilidade.
Entretanto, os governos só se preocupam em salvar os bancos, onde falta sempre qualidade de gestão e mais ainda juízo e honestidade, despejando sempre neles dinheiro que falta na Educação, na Saúde e no necessário restabelecimento dos equilíbrios entre regionais. Quanto a isso só sabem dizer que precisam de manter as portagens nas SCUTS por isso ser politicamente necessário, mas sem dizer porquê. E nunca o vão dizer. Sabemos todos porquê!
Só sabem dizer que tudo se resolve com mais emigração e, para que ninguém pareça ficar mal na fotografia, logo dizem que os nossos emigrantes estão felizes e bem adaptados. E fazem agora muitas promessas enquanto dizem que estão diferentes de quando eram governantes, assegurando que agora é que vamos ser bem governados.
E só nos pedem que esqueçamos o passado.

( 1 ) António Nobre – Só, Porto Editora, 2015, p.22

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