Opinião: Cuidados continuados e integrados em Saúde Mental – Novos Rumos, Nova Esperança

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Perante esta realidade, é justo dizer que é cada vez maior o número de psiquiatras a reconhecer que é preciso ir mais além da “hospitalização” e da prescrição de medicamentos em tratamento ambulatório. Citemos apenas dois exemplos significativos.

Na abertura do I Fórum “Boas Práticas na Saúde Mental”, em Novembro de 2010, o Dr. António Reis Marques, então Director do Serviço de Psiquiatria dos Hospitais da Universidade de Coimbra, reconheceu o “muito a fazer para além da terapêutica farmacológica”, afirmando que “faltam estruturas de apoio às famílias na comunidade, cuidados continuados, entidades que deem suporte aos doentes mentais fora dos hospitais”.

Recentemente, na crónica semanal intitulada “Diário de um Psiquiatra”, publicada na Revista do Expresso de 12 de Maio do ano corrente, José Gameiro escreveu que “tratar uma depressão apenas com medicamentos, sem uma abordagem psicológica, empática, da pessoa deprimida […] é claramente insuficiente.” O mesmo poderá ser dito de qualquer outra doença biopsicológica, seja esquizofrenia, stresse pós-traumático ou perturbação obsessiva compulsiva.

O reconhecimento da insuficiência do tratamento farmacológico desacompanhado de uma abordagem psicológica aponta para a necessidade de “integração” de intervenções de natureza psicológica nos cuidados a ter para com as pessoas com doenças mentais. Esta necessidade configura uma mudança de paradigma nos cuidados em saúde mental requerendo a formação e articulação de equipas multidisciplinares e uma abertura às famílias e outras instituições de apoio psicossocial na comunidade.

Há muito que, em Portugal, se vem sentindo a falta de estruturas para implantação deste novo modelo de tratamento das doenças mentais, que noutros países do centro e norte da Europa já se encontra implantado há alguns anos. Forçoso é reconhecer que a “resistência à mudança” tem dificultado, entre nós, quer o conhecimento quer a implantação do novo modelo dos CCISM – Cuidados Continuados e Integrados em Saúde Mental.

Que assim é, basta lembrar que medeiam sete longos anos entre a declaração do Dr. António Reis Marques datada de 2010, acima transcrita, em que denuncia a falta de estruturas de cuidados continuados e de apoio às famílias na comunidade, e a publicação do Despacho nº 1269/ 2017, que “autoriza a realização de contratos- programas” para a implantação de unidades de CCISM em diversas entidades da comunidade. Sete longos anos em que muitos doentes e seus familiares ficaram privados dos benefícios das actividades de Reabilitação Psicossocial que as diferentes unidades de cuidados continuados e integrados comprovadamente promovem.

Felizmente, embora com atraso, estamos a testemunhar o início efectivo de novos desafios na promoção da Saúde Mental no nosso País com a criação da USO Heath Coimbra- Unidade Sócio Ocupacional da rede de CCISM que está a funcionar desde finais de Janeiro na Fundação Beatriz Santos. Abre-se, assim, um novo rumo e uma nova esperança para muitas pessoas com doença mental e seus familiares.

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