Opinião: A propósito de futebol

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(Entre “Um ensaio sobre a lucidez” ou “A propósito de futebol”, optei pelo adequado à época – assim sabe o que vai ler)

A palavra ‘ética’, que vem do grego ‘ethos’, significa, literalmente, ‘morada’, ‘habitat’ ou ‘refúgio’. Já ‘ethos’ encontra a sua origem no adjetivo ‘ethike’ (servia para quantificar um determinado saber) e foi explorado por Aristóteles na expressão ‘ethike pragmatéia’ para designar o exercício das virtudes morais e da excelência humana.

O significado de ‘ética’ pode evoluir, portanto, da ‘morada’ até ao ‘costume’ (estilo de vida), sendo por isso um substantivo complexo, que incorpora a ideia de que o espaço se torna habitável pela ação do homem. No sentido que lhe quero dar, é o de que teremos o mundo que formos capazes de construir. Por um lado, admito o axioma de Protágoras (“o homem é a medida de todas as coisas”) e, portanto, o que é válido num determinado lugar, não vale, necessariamente, noutro. Por outro lado, não abdico da existência de um conjunto de valores básicos e transversais a toda a sociedade ou a toda a humanidade.

uando se apela à necessidade de redescobrirmos a versão primordial da nossa identidade, considerando que antes da nossa formação para coexistirmos como animais sociais, “fomos criados à imagem e semelhança de Deus”, não estamos a querer o endeusamento do homem, nem a conceção de um homem novo, trans-humano, ‘ciber-robotizado’ e aumentado que a inteligência artificial acabará por trazer.

Estamos, simplesmente, a sugerir que nos concentremos na nossa singularidade e abandonemos a enfatização naquilo que desfoca diariamente a nossa originalidade: a inveja, a deslealdade, a ingratidão, a ambição desmedida ou o ensaio de estereótipos e criticas à imagem dos que desfilam à nossa frente. Ignoramos, com uma velocidade inversa à anterior, a máscara dos que vivem na aparência, desconsiderando sem sensatez Pascal: “O homem não é anjo nem besta, e por desgraça quem quer ser anjo acaba por ser besta” (LI, do Artigo XXIV – Da Justiça, in Pensamentos).

Chegados à madrugada da nova era da inteligência artificial, toleramos a errata da ‘ética artificial’ que já não surpreende com a sua capacidade de alterar o conhecimento em função das circunstâncias. Abundam entre nós os maus exemplos e é, por isso, de questionar em que áreas formativas estamos a errar, para termos tais níveis de consciência coletiva e de educação para a cidadania.

A este e a propósito de futebol, é curioso refletir sobre o episódio que envolveu o treinador da seleção espanhola e o presidente da Real Federação Espanhola de Futebol. Este último, ao ser informado, cinco minutos antes do anúncio oficial feito pelos merengues, que o seu treinador iria para o Real Madrid, sem hesitação, dispensou-o, mesmo que a poucas horas do inicio do Mundial (“No se pueden hacer así las cosas y menos a cinco minutos antes del anuncio”).

Raramente existe uma razão absoluta (e há a razão do coração que tem “razões que a própria razão desconhece“), mas, desta vez, registei com satisfação a inexistência de uma única linha a justificar o injustificável. Coletivamente fomos todos Real Federação Espanhola, apesar de alguns ensaiarem, em surdina, a troca da ética pela estética, negando a credibilidade, a honra, a integridade, a lealdade, a justiça, a responsabilidade, a confiança e até a gratidão.

Infelizmente são muitos os que sustentam a sua razão numa profunda crise de valores, qual expoente da construção do animal social, apresentam-se com uma coluna tão consistente como a da alforreca. Regem-se pela escala de ‘sucesso’ e julgam-se íntegros, porque confundem retidão com a linha direita da seda.

One Comment

  1. Iōanna Nikolaïdes says:

    Caro Sr. Paulo Simões Lopes,
    De futebol percebemos nadinha.
    Mas já de sofistas (não confundir com o bom dueto entre virtude e eloquência) levamos da vida a nossa grande conta.
    Protágoras merece melhor desígnio que apenas a memória da extraviada asserção “O Homem é a medida de todas as coisas”. E já que termina com confusão entre rectidão e a linha direita da seda, sugiro-lhe então Pródico de Ceos e A Escolha de Héracles, que encontrará, creio, em Xenophon, Memorabilia, Book 2, Chapter 1, Section 20-23, tradução de E. C. Marchant, da edição da Loeb de 1923, p. 95.

    Escolha que se colocará a todos nós, no momento dessa ingrata e solitária encruzilhada onde é suposto eleger o trilho da vida. Nesse preciso lugar, posto, apresentam-se-lhe dois caminhos divergentes, e a Héracles, enquanto perplexo acerca de qual caminho escolher, juntam-se duas jovens mulheres: Areté (ou Virtude), e Kakia (ou Vício), cada uma com os nomes ilustrativos das qualidades ou propriedades que exemplificam, e com as indumentárias apropriadas ao seu papel: Virtude, bela e nobre, com seu corpo coberto por pureza e discrição, seus olhos inteiros de modéstia… Vício, voluptuosa e mole, com uma compleição não imputável à natureza, olhar errático e uma indumentária que revela mais do que esconde, seus atributos.

    Se bem que em nosso parecer, Areté (Virtude) vai invariavelmente nua, enquanto que Kakia (ou Vício), veste invariavelmente nobres panejamentos.

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