Opinião: Um santo laico

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No momento em que escrevo sabe-se há umas horas da morte de António Arnaut. Nesta quinta-feira, já (quase) tudo estará dito sobre a personalidade que partiu. De todo o modo, sentir-me-ia mal comigo próprio se não alinhavasse umas ideias sobre a vida, a obra e o legado de António Arnaut.

A primeira impressão que queria deixar é que, ao contrário do que acontece com frequência, António Arnaut ganhou uma aura especial em vida. Ela foi suficientemente longa para que, com a diversidade e coerência das suas múltiplas intervenções públicas, António Arnaut atingisse, vivo, uma espécie de apoteose.

A segunda ideia que registo é a de que António Arnaut conseguiu uma síntese discursiva que é, infelizmente, cada vez mais rara. É aquela síntese que tem como mote principal o apelo ao imperativo ético que deve comandar a acção pública e, em especial, a política, mas que, ao mesmo tempo, não cai no registo populista de maledicência fácil e do desdém pouco ilustrado pela política.

Por último, e talvez o aspecto mais nefasto do desaparecimento de António Arnaut, é aquela sensação de que, na política, as gerações não se estão a substituir. Ou estão a substituir-se, mas os protagonistas vão perdendo “densidade”. Vão-se perdendo figuras desta envergadura e ganham-se, na melhor das hipóteses, bonitos narizes de cera que debitam umas frases previamente estudadas na televisão e, na pior, uns tipos para quem a política só parece servir (ou ter servido) para alimentar a vaidade e a conta bancária.

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