Opinião: Quando o fogo acaba… quem apaga aquele fogo

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A vivência de uma situação traumática como a dos incêndios de 2017 impõe alguns cuidados que vão para além do rescaldo e da limpeza das áreas. As pessoas são o bem mais importante e deles se esquecem a maior parte dos relatórios… enterram-se as vítimas mortais, cria-se legislação para proteger o que resta da floresta, o património público e privado. Fazem-se estudos e em alguns casos destacam-se mais médicos, psicólogos, assistentes sociais e outros técnicos, fazem-se RX, espirometrias, análises clinicas, avaliações psicológicas, que durante algum tempo vão ajudando a sarar as feridas, tanto as visíveis como invisíveis…. Mas antes da nova época dos fogos já todo o apoio esmoreceu, os media ficam silenciosos, os gestores das unidades de apoio tentam a todo o custo manter uma ajuda, com morte anunciada mas fundamental, para quem dela necessita.
A tutela diz que respondeu às necessidades relatadas…Quem sente a dor revela que faltam psicólogos especialistas em trauma, quem foi apoiado diz que os voluntários fizeram o melhor que sabiam…que sabiam!
A cabeça das vítimas e dos bombeiros está a arder….Quem apaga aquele fogo? Este não pode ser um trabalho voluntário, mas antes feito por equipas de especialistas. Seis meses é o tempo limite para que o trauma agudo, como o que aconteceu no verão de 2017, passe a crónico, se não houver intervenção acurada. É preciso evitar esta situação a todo o custo. Os voluntários especializados são fundamentais na situação de emergência, mas o acompanhamento deve ser acautelado por especialistas.
O número de profissionais do SNS dedicados ao apoio psicológico já é muitíssimo reduzido para dar resposta às necessidades normais, pelo que é humanamente impossível que cheguem para as situações de catástrofe (e tem sido muitas e regulares). Uma viagem à zona dos incêndios revelou-me uma solidão maior do que um ser humano pode aguentar (ai não aguentam, não aguentam). A experiência não foi partilhada na fase aguda e parece não ser possível agora. A solidão preenche os espaços vazios, criando um vazio ainda maior. É que as indeminizações só preencheram espaços físicos, mas os da alma não.
Este momento é inédito na história de Portugal, temos que aprender com os erros e criar uma política publica de prevenção a catástrofes coordenada. É necessário trabalhar nas 3 fases de uma catástrofe: pré-impacto, impacto e pós-impacto. É preciso cuidar das gentes e cuidar de quem cuidou.
Termino alertando para o facto de que os acontecimentos de 2017 apresentam todas as condições para desenvolver distúrbios de stress-pós trauma, quer pelo número de mortos, quer pela dimensão da destruição, quer pela intensidade da catástrofe, quer pela importância na comunidade, quer pela rapidez com que aconteceu ou pela duração do fenómeno e pela falta de recursos que permitam apoiar psicologicamente tanto na fase do impacto como na pós-impacto.

One Comment

  1. Maria Helena Teixeira says:

    E nada impede que voltem a repetir-se!

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