Opinião – Estranhamente um país

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Não se compreende. Desmotiva e revolta.

Há ainda quem aqui pretenda permanecer, porque ainda tem esperança: “Isto vai melhorar! Vai-se cumprir Portugal“!

Há ainda quem lute (e muito!) para manter a opção por se manter no país (pelas pessoas, pelos locais e paisagens… no fundo, há quem ainda ame o país, que é tudo isto).

Dizem que isto é um país… mas assemelha-se bastante a um conjunto de feudos medievais em pleno século XXI. Um país, “piqueno” (assim mesmo, porque pequeno é grande demais para o que se pretende dizer). Mais “piqueno” do que o é geograficamente. O tamanho dos países vê-se por outras dimensões que não as meramente geográficas.

Os últimos dias foram estranhos. Foi uma semana esclarecedora, a que passou.

Sobre o Estado, as autarquias, a ciência, a cultura, o turismo, a cidadania e a justiça, podemos retirar algumas conclusões sobre os últimos dias:

– as autarquias, que muito acima das suas competências vão assegurando algumas funções sociais que competem ao Estado, foram uma vez mais confrontadas com a negação do Estado em cumprir a sua obrigação. O que se está a fazer ao Teatro, às artes e à cultura em geral, é de tal forma grave que as suas consequências terão repercussões a longo prazo. Não há país sem cultura, sem artes. Não haverá educação sem cultura, sem artes. E depois, por um lado, definimos o Turismo como setor prioritário, por outro, aniquilam-se quase totalmente as estruturas capazes de criar conteúdos para aumentar a permanência turística. A não ser que queiramos um Turismo para despedidas de solteiro… Coisa que, aliás, já se vinha a definir há algum tempo. Infelizmente. Quando poderíamos estar a definir um Turismo de alto valor acrescentado, massificamos a oferta e concentramo-la em Lisboa e Porto. Um erro que se pagará caro num futuro breve.

O Senhor Presidente da República condecorou, e muito bem, o encenador Carlos Avilez. Uma referência do país (se é que isso interessa). Dias depois, a sua companhia de teatro (o Teatro Experimental de Cascais) vê-se excluído dos financiamentos do Estado. E não foi a única de relevo a ser excluída. Em Coimbra, nem a Orquestra Clássica do Centro, nem o Teatrão nem a Escola da Noite conseguiram financiamento. Na Covilhã, o Teatro das Beiras também ficou de fora. É evidente que não haverá dinheiro para tudo e que tem que haver critérios bem definidos. Mas o principal problema é o insuficiente orçamento atribuído ao Ministério da Cultura e especialmente o que está definido para as artes. É mesmo ridículo, para um país que quer ser Europeu e moderno.

– A quantos cidadãos comuns, anónimos, que por dívidas ao fisco de poucos milhares de euros, são as suas contas bancárias e ordenados penhorados? A quantos cidadãos com dívidas de milhões de euros acontece o mesmo? Há dias, ficámos a saber que um crime ambiental grave, cuja multa devia servir para melhorar a fiscalização ou a resposta a crises, foi substituída por uma repreensão escrita. Os prejuízos de um banco (sabe-se lá o que é que isso significa!), vão ser ressarcidos por todos nós. Uma vez mais…

Os investigadores científicos são os mais precários dos precários. Não têm direito a segurança social, férias, subsídio de férias, 13.º mês, seguros, subsídio de alimentação. Já para não falar do valor das bolsas. Alguns investigadores estão nesta situação há dezenas de anos, com bolsa atrás de bolsa. Alguns saíram do país. Outros mudaram de emprego.

Um belíssimo País com cidadãos criativos, empreendedores, trabalhadores, merecia um país (a) sério.

 

One Comment

  1. Uuh… Não amo este país. Por uma razão muito simples. É que se só amar este, não posso amar outros. Ser cidadão do Mundo, recorda-se?
    "Não sou um ateniense ou um grego, mas um cidadão do mundo". A tal citação de Plutarco.
    Mas que está mal! Está mal!
    Ora confronte lá com o putativo diálogo entre Sócrates e Crito.
    Persuadimos a Lei da Cidade a libertar-nos? Ou obedecemos-lhe, e nela à sua mão injusta perecemos?
    Nesta questão deste país que é desgovernado, acha preferível simpatizar com Sócrates ou com Aristipo?

    A Cornucópia fechou há muito. E não fora o Teatro Municipal Joaquim Benite… E nem pouso tinha o Luís Miguel Cintra. Que vai também tendo ancoradouro por outros lados, a modo de persistência na sua Arte.

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