Opinião: A um herói quase desconhecido…

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O Pereira nasceu e morreu, há muitos anos, na Sobrosa, minúscula aldeia de Mortágua. A longa vida desse homem simples, honrado e respeitado, cuja memória louvo, espelhou a alma de uma nação que se agiganta sempre pela grandeza de alguns dos seus mais diletos filhos.

Não dos que, ocupando lugares de relevo, nos mentem sem vergonha, mas dos que são expoentes de um povo audaz, que sempre foi, como será sempre, capaz de suportar os maiores sacrifícios, como aconteceu na Flandres, na trágica batalha de La Lys, no dia nove de abril, de há cem anos atrás!

Pereira foi um dos homens que, após a declaração de guerra da Alemanha a Portugal, em 1916, integraram o Corpo Expedicionário Português, que no decurso da primeira GG (Grande Guerra Mundial) lutaram pela liberdade, em terríveis confrontos bélicos com as tropas germânicas.

Foi condecorado pela coragem demonstrada nos campos de batalha, tendo depois disso regressado à Sobrosa, onde sobreviveu com uma pensão de miséria e de uma agricultura de subsistência, já que as condecorações não trazem riqueza, e caem logo no esquecimento de países ingratos. Ficando viúvo muito cedo, criou os filhos com extremas dificuldades, mas o destemido Pereira mostrou, toda a vida, ter enorme orgulho no único grande valor que possuía: a “sua” Medalha!

Para honrar a memória de “todos os Pereiras”, não olvidemos que os alemães tentaram diversas vezes conquistar a Europa, e outras regiões, pela força das armas. Até que, perdida a segunda GG, que tinham iniciado em 1939, alcançaram esse objetivo em paz, pela força de um colossal poder económico. Este resulta das notáveis capacidades de trabalho e de organização de que tão tenaz povo é dotado, potenciadas por primorosos sistemas de educação, que aliam as teorias às melhores práticas.

Valores que, de modo coerente com a maneira de ser e de estar teutónica, sucessivos governos vêm incutindo no povo como disciplina de vida e fortaleza de princípios, levando a sociedade alemã a conceber, fabricar e vender, em todo o mundo, produtos e serviços.

É à luz da filosofia de vida que assume o trabalho como fator de sucesso, que evoco palavras de 2017, do então ministro das finanças germânicas, sobre Centeno e os avanços da economia lusa. E que lembro que desde a Revolução dos Cravos, a Alemanha nos tem auxiliado com relevantes fluxos financeiros e com a deslocalização de grupos tecnológicos germânicos para Portugal, que vêm promovendo um notável desenvolvimento das nossas indústrias, fazendo aquelas empresas muito mais pelo progresso do nosso país, do que tantas das mais sonantes declarações de boas intenções de políticos nacionais e internacionais, que pouco acrescentam à economia nacional.

Mas o apoio da Alemanha a Portugal é mais antigo do que o acima citado. Desde há muito mais tempo que se desenvolve intensa cooperação entre os dois países, potenciada pela nossa posição geoestratégica e bom clima, por possuirmos filões de valiosas matérias-primas, e em especial, pelos fluxos migratórios que têm consolidado uma interpenetração económica que nos tem feito progredir de forma mais rápida e segura, do que se estivéssemos entregues só a nós mesmos.

Mas, mais importante que recordar elogios de quem há dois anos criticou rudemente a forma como temos participado na construção da União Europeia, é focar o nosso labor na promoção de um crescimento económico continuado, mas a taxas superiores às que temos tido, para o que são precisos parceiros comerciais que comprem os bens e serviços aqui produzidos.

E como iremos continuar a precisar de crédito externo, e de gerar muitos empregos de forma rápida, lucramos imenso em a Alemanha ser, mais que um parceiro conveniente, um país amigo. Ora os amigos verdadeiros dizem o que pensam, sendo as suas críticas, e os seus elogios, sempre bem-vindos… Quanto ao Pereira, um herói quase desconhecido, espero ter contribuído para não ser esquecido!

One Comment

  1. Maria Miraldo says:

    Os verdadeiros heróis são, por norma "despojados anónimos" como o Sr Pereira de Sobroso, Mortágua.
    Como os considero " uma espécie em vias de extinção", presto a minha homenagem e aplaudo todos os que contribuem para avivar a nossa memória e a não esquecer estes humildes e corajosos heróis.

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