Entre a subida do agrado e a cascata da asneira

Vou pedir ao leitor um pouco de paciência. Peço-lhe que leia esta nota introdutória pois, para explanar o meu raciocínio, tenho de garantir que na sua cabeça está a imagem de uma pirâmide, permitindo a subida até ao topo por um lado e a descida pelo outro.

Se o Serviço Nacional de Saúde (SNS), no que diz respeito aos Cuidados de Saúde Primários fosse uma pirâmide, a sua base era formada pelas equipas que prestam directamente cuidados aos cidadãos:

1. Unidades de Cuidados de Saúde Personalizados (UCSP) e as Unidades de Saúde Familiares (USF): assistentes técnicos, enfermeiros e médicos.

2. Unidades de Cuidados de Saúde da Comunidade (UCC): enfermeiros, assistentes sociais, médicos, psicólogos, nutricionistas, fisioterapeutas, terapeutas da fala e outros profissionais.

3. Unidades de Saúde Pública (USP): médicos de saúde pública, enfermeiros de saúde pública ou de saúde comunitária e técnicos de saúde ambiental.

4. Unidade de Recursos Assistenciais Partilhados (URAP): são constituídas por “profissionais não afectos totalmente a outras unidades funcionais”.

Por cima desta base existe um conjunto de outras unidades, denominado Agrupamento de Centros de Saúde (ACeS), dirigido por um Director Executivo que é assessorado pelo Conselho Executivo, Conselho Clínico e o Conselho Comunidade.

Por cima dos ACeS estão as Administrações Regionais de Saúde (ARS), que têm por missão a “prossecução das atribuições do Ministério da Saúde”. Por cima das ARS existe a Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS).

Feita esta nota introdutória, agradeço ao leitor a tenacidade de ter chegado até aqui. Vou agora tentar explicar o que quero dizer com o título do artigo “subida do agrado e a cascata da asneira”. A “subida do agrado” significa que quem está “por baixo” deve agradar quem está “por cima”. Enquanto que a “cascata da asneira” significa que quem está “por cima” manda fazer asneiras a quem está “por baixo”.

Como pode isto estar relacionado com o Serviço Nacional de Saúde? Imagine um profissional de saúde que precisa de algo para um utente. Terá de pedir ao ACeS, que peça à ARS para consultar a ACSS, respeitando a “subida do agrado” e talvez com sorte algum dia respondam ao seu pedido. Ao contrário a ACSS, longe dos utentes, sem perceber minimamente o que são os cuidados de saúde e como devem ser prestados, quase diariamente, emana “asneiras” que são transmitidas pela ARS a todos os ACeS que, por sua vez, impingem às Unidades Funcionais a execução. É por isso que promovemos a criatividade. Se quero algo para os meus utentes tenho de arranjar parceiros que me permitam obter resultados.

Onde trabalho, se não fosse a Câmara de Soure, ainda hoje estávamos à espera das obras de melhoramento das instalações da Extensão de Saúde da Granja do Ulmeiro e de uma Assistente Técnica para uma das extensões de Saúde.

Há coisas que não dá para dar a volta. Ainda hoje esperamos por um médico, para a extensão de saúde de Coles de Samuel, colocado em concurso nacional há 4 meses, mas aguarda “autorização” para a sua mobilidade. Dizem que o pedido está algures entre a subida do agrado e a cascata da asneira.

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