Opinião: Portugueses desconhecidos como naturalistas

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Comprei em Montevideu um livro de Walter Rela com o título “Viajeros, Marinos y Naturalistas en la Banda Oriental del Siglo XVII”, da editora Ediciones de La Plaza, publicado em 1992 e procurei nele referências aos naturalistas portugueses. Foi o que não encontrei. Só encontrei neste livro referências escassas à ocupação portuguesa de Montevideu pois “Apenas comenzando el siglo XVIII, el Consejo Ultramarino de Portugal aconseja a su rey, sobre los puestos a crear-se para guarnecer y administrar la fortaleza de Montevideo” (p. LVIII, coluna 1 ). Há ainda referências á presença comercial de portugueses e bem mais largas em relação a Sacramento, onde a nossa presença é ainda evidente.

Na leitura feita não vi notícia da presença de naturalistas portugueses, mostrando como o Marquês de Pombal teve fundadas razões em reformar a Universidade de Coimbra, introduzindo o ensino das Ciências Naturais e da Matemática, que tinham entrado em decadência, necessitando Portugal de o reintroduzir e valorizar valores nacionais como José Anastácio da Cunha. Mas, como sempre foi sol de pouca dura pois quando D. José I morreu, o Marquês foi desterrado para Pombal e a esperança de uma radical mudança científica em Coimbra e em Portugal foi logo reduzida.

Contudo, surgiram nos anos seguintes diversos naturalistas portugueses, uma parte importante deles brasileiros, como foi José Bonifácio de Andrada e Silva. Foi o que se inseriu num movimento científico que se estendeu por muitos mais anos.
Foi o que também evidenciaram Marcelo de Sousa Neto e Cláudia Cristina da Silva Fontineles, quando comunicaram no CIHELA XIII acerca do papel social do Padre Marcos de Araújo Costa, formado no seminário de Coimbra e seguidor de Brotero de quem possuía diversos livros escritos por ele, e que atuou como dinamizador do Ensino das Primeiras Letras no Norte do Brasil, mais propriamente no Piauí entre 1820-1850.

Na década de 1810 também em Coimbra, após o fim das invasões francesas, surgiu como novidade o Jornal de Coimbra, que foi um veículo de inserção da Universidade no movimento científico europeu e mundial que assentava nos naturalistas, onde era peça base Alexandre Humboldt.

De facto, tal como acontece com as ideias políticas, os ideais científicos têm altos e baixos, diremos até que submergem para sobreviver para mais tarde ou mais cedo reemergirem, e por vezes com uma força tão difusa que ninguém dá por eles.

Na verdade, nas constituintes de 1820 estão muitos dos que nasceram após a reforma pombalina das primeiras letras, que mostraram como deputados que tinham um novo espírito e estavam preparados para mudar o Portugal conservador.

E assim os ideais de progresso científico foram vencendo.

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