Opinião: Ortopedia 5/C

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Fui surpreendido quando um colega me telefonou a dizer que a Ortopedia 5/C nos CHUC ia ser encerrada. A mesma nasceu após a divisão do serviço de ortopedia de então, sob a direção desse espantoso Homem de futuro, Prof. Norberto Canha, em sub-especialidades. A infeção osteo-articular foi-me entregue a mim, tendo-me levado a estagiar em Barcelona, no Hospital de Valle Hebron, com o Prof. Nardi e Collado Fabregas, e no Hospital Cantonal de Genéve com o Prof. Vasey. Aí apercebi-me da dimensão do problema, em unidades absolutamente exemplares.
Aqui chegado, e com o apoio permanente do meu Diretor criou-se a Ortopedia C, num dos pavilhões de Celas tendo no inicio apenas doentes infetados, e posteriomente uma secção de fraturas expostas e esfacelos graves.
Quando um osso é infetado cria-se uma situação verdadeiramente dramática pois é extremamente difícil o seu tratamento, na medida em que as bactérias rapidamente se instalam e a fraca irrigação faz com que o antibiótico praticamente não chegue a essas áreas. A mesma pode acontecer por duas vias: ou diretamente por via sanguínea provocando osteomielites agudas, ou a maioria delas no pós cirurgia aquando da aplicação de implantes que algumas vezes levam a terríveis infeções.
A filosofia da unidade separada das restantes camas era fundamentalmente a de retirar uma patologia altamente infetante de junto de outros doentes que não eram portadores de infeção mas pelo contacto próximo podiam vir a ser infetados. Imagine-se alguém que vai ao Hospital à procura de uma cura de uma doença de que é portador e contrai uma doença muito mais grave – a infeção osteo-articular.
Inaugurado em Maio de 1988, ali são tratados centenas doentes do país inteiro, e até muitos dos Palops. Recordo um Padre Missionário que veio diretamente do norte de Moçambique com ferimentos de uma mina numa perna para ser internado na Ortopedia C.
Eramos, no meu tempo, uma equipa muito unida, com enfermeiros de eleição e auxiliares com enorme espírito de serviço, o que criava um espírito familiar reconhecido pelos doentes com quem fiz grandes amizades, e que foram um bem inestimável na minha vida profissional.
O agravamento e a subida da taxa de infeções hospitalares tem muito a ver com o uso indiscriminado que fazemos de antibióticos que tornam sucessivamente a bactéria mais resistente, chegando ao ponto de, muitas vezes, não termos arsenal terapêutico para a combater.
A cirurgia da infeção osteo-articular assemelha-se muito à cirurgia tumoral pois é necessário retirar todo o osso infetado, mesmo que para isso seja necessário criar descontinuidades ósseas, e muitas vezes, criar zonas mais ou menos extensas onde o osso é retirado na totalidade. A sua reconstrução é complexa, mas possivel.
As maiores tragédias acontecem no entanto, quer com os grandes politraumatizados, em acidentes com enorme força cinética, quer na aplicação de implantes, próteses ou placas que por um motivo ou outro infetam, fistulizam e criam situações de cronicidade, com sucessivas cirurgias a tentar debelar situações de grande dificuldade, e principalmente no arrastar de sofrimento por anos, cirurgia atrás de cirurgia, dos doentes portadores desse terrível flagelo a que Norberto Canha chamou “a lepra do século XX”.
Por tudo isto, unidades altamente diferenciadas com assepsia irrepreensivel e longe de toda a “patologia limpa” são essenciais unidades de saúde de referência.
Foi portanto com enorme alegria que recebi a noticia de que afinal o Conselho de Administração dos CHUC havia recuado na sua primeira decisão e a ortopedia C se mantinha aberta, reduzindo o seu número de camas de 24 para 16.
Fiquei feliz, não porque eu tenha estado na sua origem, mas fundamentalmente porque acho tratar-se de um bem inestimável para todos aqueles que, do foro ortopédico, procuram os CHUC para serem tratados.
Temos todos que estar alerta e não deixar que a centralização que cada vez mais impera a todos os níveis nos leve uma das últimas referências desta Coimbra de sempre, a saúde, sendo o CHUC seguramente um pólo de excelência.

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