Opinião à volta das empresas – Garraiada p’ra que te quero?

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Trabalho em Comunicação há mais de 20 anos.

Aquilo a que se costuma chamar de publicidade mas que é muito mais que publicidade. É estratégia, é conceito criativo em dupla com designers, é pensar a forma como uma marca pode fazer o seu caminho por entre o mundo clamoroso do online, do offline, dos eventos, do marketing de guerrilha e activação, do brand content, da assessoria mediática, do marketing digital – agora que as maiores marcas portuguesas já alocam metade dos seus orçamentos de compra de espaço nos meios online.

Mas – há sempre um terrível e feliz mas – antes da profissional de Comunicação sou pessoa, cidadã, mãe e mulher. E por isso faço aqui hoje um intervalo nos textos sobre Comunicação para falar de cidadania, cidadania plena.

A abolição das garraiadas na Queima das Fitas de Coimbra é um enorme motivo de alegria pessoal. Sou convictamente contra touradas há décadas e tudo o que lhe esteja ligado – sendo que uma garraiada é uma encenação de tourada. Não há sofrimento do animal? Talvez, mas há o incentivo e o louvor ao espectáculo da tourada – deprimente, medieval e próprio de um país que se recusa a avançar no seu tempo.

A tradição é em si própria uma coisa boa? Queimar suspeitas de bruxaria na fogueira foi tradição durante muito tempo e isso não era uma coisa boa.

A legalidade? O fascismo foi “legal” durante décadas em Portugal, ou o apartheid na África do Sul e isso não lhes garantiu nenhum tipo de legitimação ética.

A resistência à mudança existe? Existe e faz parte do próprio processo de mudança.

A tourada é uma arte? Quando o sofrimento inútil está envolvido, não é possível falar de Arte.

A tourada está condenada em Portugal há anos. Os espectadores diminuem, as receitas também, as principais marcas recusam estar associadas a uma “tradição” de violência e sofrimento inúteis.

Como em todos os processos de mudança, a História leva o seu tempo a fazer o seu percurso. Quem poderia saber que Mandela esperaria 27 anos para ver o mundo dar-lhe razão, ou que 400 quilómetros da Marcha de Sal fariam a diferença para Gandhi? A História guardou o nome dos que estiveram do lado da violência, ou dos que se lhe opuseram?

Os meus sinceros parabéns aos estudantes de Coimbra que conseguiram a proeza de trazer este assunto para a actualidade. E mesmo que a garraiada ocorra, há uma coisa que não muda: o mundo pula e avança, mesmo quando alguns teimam em não ver a mudança.

É só uma questão de tempo…

 

One Comment

  1. É altura, de facto, de pormos de lado a complacência natural de quem convive desde sempre lado a lado com práticas infames normalizadas e dizermos basta. Enquanto formos tolerantes com o intolerável, em nome de uma suposta liberdade, essas práticas continuarão a inquinar o tecido social, inibindo-nos de evoluir para uma sociedade verdadeiramente promotora de respeito e solidariedade. É quando damos visibilidade aos mais vulneráveis e nos colocamos ao seulado, impedindo as atrocidades a que a indiferença coletiva os votou, que crescemos e nos tornamos melhores.
    Obrigada, Alexandra Azambuja, por esse passo em frente.

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