Opinião – Que não vá o sapateiro além dos chinelos

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Na minha juventude li que, na Grécia, um pintor fez um quadro e que se pôs atrás dele para ouvir as críticas. As primeiras foram de um sapateiro que apontou os defeitos que tinham as sandálias. No dia seguinte, passou pelo quadro, viu as sandálias corrigidas e apontou outros defeitos ao quadro. Sai de lá o pintor e diz-lhe: “Não vá o sapateiro além dos chinelas”.

Desta forma, sobre ensino e saúde, todos falam ou se pronunciam. Será que têm experiência das duas coisas? Porque se só for de uma delas é insuficiente. É um erro aceitar com subjugação as normas comunitárias sem descortinar as suas consequências.

Comecemos pela saúde. É noticiado que até os enfermeiros querem receitar. Sempre o fizeram, sempre o hão-de fazer. Mas é como alternativa a quando um médico falta que, de facto, o enfermeiro é a pessoa mais indicada para o fazer. Lembro-me até que, em Novo Redondo, Angola, como o médico estava extremamente ocupado, a primeira pessoa a quem recorríamos era ao Senhor enfermeiro Traça, de seu nome. Ele, além de dar as injecções, recorria ao médico – o único em Novo Redondo – quando as necessidades iam além das suas capacidades. Havia uma ligação profissional e funcional que assegurava a confiança do doente nos profissionais de saúde.

Mas, naquele tempo, nem raio-X havia. Hoje, esta pletora de exames, desde a medicina nuclear, ecografia, TAC, ressonância,… levou a que a tecnologia se sobrepusesse à observação clínica. Admita-se que falta a electricidade… A Guiné, por exemplo, chegou a estar um mês sem electricidade! Imagine-se que por sabotagem é cortada. O médico actual, dos ditos países do primeiro mundo, fica totalmente inoperante, pois que confia mais na tecnologia do que no exame médico.

Para que não restassem dúvidas de que o exame médico se sobrepõe à tecnologia, fez-se um trabalho comum, com especialistas de todos os ramos, e os acertos ficaram assim escalonados: 85% para o exame clínico, seguindo-se a medicina nuclear (que diz que “há peixe” mas não identifica qual a sua qualidade), a ecografia, a ressonância magnética, o TAC e o raio-X. Quando entra um doente no consultório, a primeira coisa que o doente nos mostra é o raio-X que fez. O meu procedimento era e é diferente. Não quero saber uma palavra do que disseram os meus colegas. Faço a observação clínica, peço que me mostrem os exames, altero ou mantenho a mesma posição. Só depois quero saber o que disseram os meus colegas. Se o diagnóstico corresponde, quase de certeza que está certo. Se houver discordância, ver-se-á então quem terá razão, recorre-se a novos exames ou, quiçá, a uma outra especialidade.

Como os legisladores pouco saberão de Medicina – com certeza nem ouvem os seus conselhos – implantou-se a Medicina defensiva, extremamente cara, porque a multiplicidade dos exames pedidos e executados é a segurança do médico perante a avalanche injustificada de processos judiciais.

Para agravamento do que se acaba de dizer, quem ordena na saúde dá apenas 10 minutos por doente ao médico. Tão curto espaço de tempo perde-se com a morosidade do computador e registo dos exames.

Oiçam quem sabe! Legisle-se de forma fundamentada, o que não está a acontecer. Que quem ensina não se satisfaça com exames…

Que não vão os sapateiros além dos chinelos!

 

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