Opinião – Os próximos fundos comunitários

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O próximo programa de financiamento de fundos comunitários, Portugal2030, deveriam ser dedicados essencialmente a resolver os problemas da desertificação económica e demográfica do interior de Portugal, a uma profunda reforma administrativa do país, a fatores de competitividade e inovação nas empresas e à formação de recursos humanos.

Ouvi o ministro das infraestruturas numa entrevista sobre o novo pacote de financiamento e confesso que não gostei nada. Voltamos a falar, no essencial, de obras, infraestruturas, estradas, etc. Já chega. Por uma vez, só por uma vez POR FAVOR, vamos colocar os fundos comunitários ao serviço das regiões, procurando projetos estratégicos que permitam diferenciar as várias regiões do país, as quais devem estar dotadas de mecanismos que permitam agilizar a tomada de decisão local e a coordenação com as outras regiões.

Ouvi também o ministro do ensino superior a dizer que pretendia reduzir, em 5%, o número de vagas nas universidades do Porto e de Lisboa. O objetivo era o de favorecer as outras universidades, nomeadamente as de interior, aumentando o número de alunos sem colocação em Lisboa e no Porto. Essa ideia não faz o menor sentido e ainda vai agravar mais o problema que pretende resolver. A mensagem subliminar que fica desta medida é que Lisboa e Porto são as melhores escolas do país e que é necessário limitar administrativamente o acesso para que os alunos se espalhem mais pelo país. Resultado: percebendo a mensagem, que até fica clara para toda a sociedade e para os empregadores, os melhores alunos vão procurar ainda com mais intensidade as escolas de Lisboa e Porto.

Acontece que é uma mensagem errada, na forma e no conteúdo. O que é necessário fazer é bem mais simples, mas exige coragem e algum discernimento. O ensino superior tem de ser reorganizado, diferenciando a oferta formativa e incentivando a contratação de um corpo docente diferenciador nas escolas do interior. Isso significa investimento para criar condições de atratividade. É nessa diferenciação que é muito relevante a participação ativa das Universidades e Politécnicos dessas regiões, mas também um forte plano de cooperação interinstitucional. É altura de olhar para o país como um todo e fazer um plano a médio e longo prazo, direcionando os instrumentos financeiros para esse objetivo. Portugal não é só Lisboa e Porto. Tenham juízo. Atuar desta forma só vai ainda inclinar mais o país para o Porto e para Lisboa. Espero que esta ideia não se concretize.

Outra estratégia que tem de ser bem pensada é a iniciativa Indústria 4.0, isto é, a ponderação cuidadosa sobre o modelo industrial que queremos seguir e que mais favorece a realidade do nosso país. O Governo lançou, muito oportunamente, a iniciativa “Indústria 4.0”, a qual tem várias implicações. Desde logo na indústria, mas também nas cidades e na capacidade de estes espaços serem comunidades de inovação e, consequentemente, apoio a atividades mais “industriais”. Portugal é um país com enormes potencialidades e tem um tecido industrial muito particular e competitivo. Com a nova revolução industrial, como muitos lhe chamam, precisamos de prestar atenção ao impacto que as transformações que ela introduz terão na nossa indústria, a qual queremos, digo eu, manter com forte presença humana. Os mercados que podemos atingir, aquilo para que nos direcionamos (ou devemos direcionar) exigem um tipo de produção (personalizada) cuja competência temos de reforçar, aproveitando muito do que é importante desta nova revolução industrial e tecnológica. Nessa perspetiva, o esforço que devemos fazer, nas universidades, com as startups, com a indústria, é reforçar a capacidade de um pequeno país que se pode especializar em fazer bem coisas em pequena e média escala de produção, que exigem tecnologia de ponta, gente superespecializada e muita cooperação universidade-indústria. Ou seja, sem ser concorrentes dos objetivos originais da nova revolução industrial, que tem claramente uma vocação de automatizar e robotizar a 100%, tirando partido da capacidade dos sistemas embebidos da nova geração (capazes de comunicar e ter capacidade cognitivas – internet of things), a realização do “Indústria 4.0″em Portugal deve procurar reforçar as nossas características particulares (mencionadas acima) e com isso reforçar a nossa competitividade e posicionamento estratégico. É nesses aspetos que as cidades, com comunidades de inovação bem preparadas e ligadas à indústria, podem ser determinantes.

Bons exemplos disso são a indústria metalomecânica, que conheço muito bem, mas também o têxtil reformulado (que também conheço muito bem), o calçado, indústrias que misturam várias áreas e são tão competitivas em segmentos altos (caso das bicicletas e motos aqui na zona centro) e muitas outras. Tudo industrias com elevado potencial de diferenciação e com capacidade de atingir mercados que valorizam a qualidade.

Ainda recentemente expressei estas ideias num congresso de consultores de empresas (em Lisboa) e ficou muito claro que essa também é a perceção de quem está perto das empresas e as ajuda em processos de investimento, nomeadamente com fundos comunitários.

Sejamos inteligentes e olhemos para o futuro no planeamento do novo quadro.

 

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