Opinião – Crescer: para cima, para os lados e para baixo

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Julgo que só existe um contexto em que “crescer para os lados” é muito positivo; que só há um vetor em que “crescer” pode não ser “para cima”, e isso é também muito positivo; e que só existe um setor onde até “para baixo” se pode “crescer”, o que também é um sinal muito positivo, de sanidade e até de justiça. Digo eu, que nem me agrada o conceito de “crescimento”. No entanto, recorro ao conceito tecnicamente mais aceitável dentro da disciplina a que me refiro: economia. Em economia “cresce-se para cima”, mas também se pode “crescer para os lados” e até “crescer para baixo”.
Portugal cresceu 2,7%, em 2017, de acordo com o INE. É o maior crescimento desde o ano 2000. Mas Portugal não cresceu tanto como outros países. E que países são esses? Os da Europa de leste, como a Roménia, a Polónia, a República Checa, a Hungria, a Eslováquia, a Letónia, a Eslovénia. Mas também como a Irlanda e até a Suíça. Portugal cresceu ao nível da Holanda, França, Alemanha e Itália, por exemplo.
Mas, no entanto, continuamos com um dos maiores índices de desigualdade económica, temos quase 25% da população no limiar da pobreza e da exclusão social. Temos um péssimo índice de acesso à Justiça, o acesso à Saúde tem vindo a degradar-se e a Educação está em rutura. Para além disso, temos tantos milionários quanto a Arábia Saudita (país que possui o triplo da nossa população). O trabalho precário existe em Portugal. Os postos de trabalho diminuíram. Os salários são baixos.
Portugal tem crescido, parece que é um facto. Cresceu melhor para cima do que cresceu para baixo. Talvez tenha crescido para os lados, mas as PME continuam a ser as mais fustigadas com a carga fiscal, consistindo-se quase como distribuidores de riqueza, para cima e para baixo.
Tal como o Leste europeu, que também “cresceu para cima”: o investimento aumentou, foram atraídas para estas geografias importantes multinacionais, mas o emprego é volátil e os salários são baixos, pelo que o ligeiro aumento do poder de compra das pessoas poderá estar a camuflar uma realidade a médio prazo pouco favorável para estes países. Ou melhor, para as classes produtivas destes países.
Portugal pode crescer mais, de facto. Também acredito. Desde logo “crescer mais para os lados” e “crescer mais para baixo”. Não se pode aumentar a produtividade, e assim o famigerado crescimento, com trabalho precário, postos de trabalho voláteis e baixos salários. Não se pode crescer mais sem uma orientação estratégica nacional, setorial, mas transversal e integrada, a curto, médio e longo prazos.
Acredito que o crescimento que se verificou tem como principais responsáveis o capital humano e o capital social existente; que se deve aos portugueses e portuguesas que estão melhor preparados, mais cultos e melhor formados, são mais arrojados, são mais empreendedores, são criativos, inovadores e resilientes.
Não se conseguirá crescer mais se deixarmos sair do país os homens e as mulheres competentes; sem uma redistribuição da riqueza mais gradual e justa, capaz de prender as pessoas e o talento.
E depois de se saber para onde Portugal quer ir, faça-se uma reforma profunda na Educação, e já agora na Saúde, na Justiça, na Ciência e na Investigação.
Somos 10 milhões e em acentuada diminuição…

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