Opinião: Três notas de preocupação no início de 2018

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Joaquim Norberto Pires

1. Marcelo Rebelo de Sousa vetou, com sinais de valente puxão de orelhas aos deputados, a famosa alteração da Lei do Financiamento dos Partidos. Fica-me a simples dúvida: o que sente um deputado, que tenha votado favoravelmente essa lei, ao ler o que o Presidente da República apresentou como justificação para devolver a lei à AR, referindo-se explicitamente “à ausência de fundamentação publicamente escrutinável quanto à mudança introduzida no modo de financiamento dos partidos políticos”? Não sente a sua credibilidade e dignidade colocada fortemente em causa? No fundo, o mais alto magistrado da nação está a dizer que esses deputados participaram em algo que não foi transparente e pretendeu esconder informação dos cidadãos.

2.Um dos editoriais do Público da semana passada dizia algo muito interessante: “Portugal tem em 2018 a possibilidade e a obrigação de erradicar o défice do léxico nacional. Se o fizer, será a forma mais fácil de garantir que assim se manterá no futuro. Até porque nesse futuro ninguém ambicionará ficar conhecido como o ministro das Finanças que trouxe o défice de volta”. Ou seja, os eleitoralismos não são admissíveis, nem Governos futuros que tragam o défice de volta.

3.Esta semana, a propósito do lançamento do livro “Fire and Fury: Inside the Trump White House”, da autoria de Michael Wolff, um livro que relata o primeiro ano da administração Trump, recorrendo a relatos e entrevistas de pessoas que estiveram na Casa Branca, fui reler um artigo do The Guardian que me tinha impressionado muito no verão. Refiro-me a um artigo escrito por um ex-piloto da RAF, Harry Leslie Smith, de 94 anos, que fala dos sinais de guerra que são visíveis um pouco por todo o mundo e que o autor compara com os sinais que existiam no verão de 1939. Na altura, dizia ele, ignorou esses sinais e passou um verão normal, o último de paz até 1945. Teria tirado fotos com os seus amigos e rido a bom rir do Hitler e de outros monstros fascistas que viviam a uma distância que parecia completamente segura. “Não podia imaginar, naquele agosto de 1939, que a vida sem paz, sem carnificina, sem ataques aéreos, sem a explosões, poderia ser medida em dias. Não prestei atenção ao ruído de aproximação guerra. Agora, velho e mais experiente, ouço-o de novo e temo pela geração dos meus netos. Espero estar errado. Mas estou petrificado”. Harry Smith continua o seu artigo descrevendo alguns dos sinais visíveis de aproximação da guerra: “Os sinais estão por todo o lado, mas talvez o maior de todos seja o facto de os EUA se deixarem levar por Donald Trump, um homem muito deficiente em honra, sabedoria e em humanidade. É inacreditável que os americanos acreditem que os seus generais os vão salvar de Trump, caso as coisas corram mal. Na verdade, isso é tão tonto como foram tontos os alemães liberais que acreditaram que os militares protegeriam a nação dos excessos de Hitler”.
Michael Wolff, o autor do livro, escreveu na 5ª feira um artigo no Hollywood Reporter onde deixa afirmações que são muito perturbadoras sobre Trump e equipa, sublinhando que as pessoas que trabalham com Trump têm sérias dúvidas sobre a capacidade de Trump para desempenhar o cargo, aparentemente devido a sérios problemas cognitivos e de memória. Descreve um ambiente de caos, de desorganização e total irresponsabilidade que a entrada de Kelly como Chief of Staff veio de alguma forma regular. No entanto, “toda a gente está penosamente ciente das repetições, cada vez mais comuns, de Trump. Costumava levar 30 minutos a repetir as mesmas três histórias, palavra por palavra e expressão por expressão, mas agora isso acontece a cada dez minutos. De facto, muitos dos seus tweets são um produto das suas repetições — ele simplesmente não consegue parar de dizer seja o que for. […] A minha impressão indelével ao falar pessoas dos eu staff e ao observá-las ao longo de grande parte do primeiro ano da presidência é que todos, 100% deles, não acreditam que Trump seja capaz de desempenhar este cargo”.
Nesse mesmo dia, em resposta ao líder da Coreia do Norte, Trump esclareceu o mundo que o seu botão nuclear é bem maior e mais poderoso que o do louco da Coreia. E assim vai Portugal e o mundo no início de 2018.

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