Opinião: Os tempos de mudança no ensino da Engenharia (2)

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Os engenheiros do futuro devem ter valores, preocupações, preferências e tendências. Devem conhecer com mais profundidade o mundo real, que vai ser o seu futuro ambiente de trabalho. O conhecimento é a base de dados de um engenheiro. As outras competências são as ferramentas usadas para manipular o conhecimento, para atingir um objetivo, fortemente influenciado pelas atitudes.

Até há cerca de 30 anos, a maioria dos professores de engenharia trabalhava na indústria ou eram seus consultores. Os conhecimentos que transmitiam aos alunos eram aqueles de que a indústria necessitava. Os cálculos eram repetitivos, rotineiros, longos e feitos manualmente. Os valores primários da prática de engenharia na época eram a funcionalidade e o lucro. Hoje tudo é diferente. A maioria dos atuais docentes de engenharia não tem experiência industrial ou empresarial.

Ensinam-se na maioria das vezes os conceitos obtidos há anos e pouco se fala na sala de aula sobre as novas tendências e os novos conceitos. Ainda de acordo com o referido Conselho de Acreditação, os resultados obtidos na investigação desenvolvida pelos docentes, tem como principal finalidade dar origem a artigos científicos, que é na prática a forma dos docentes obterem uma avaliação positiva da sua atividade, desprezando-se a capacidade pedagógica e o nível como decorrem as aulas.

As circunstâncias enfrentadas nas práticas de engenharia de hoje são consideravelmente diferentes das do passado, e as circunstâncias do futuro serão ainda mais distintas. Será necessária uma nova educação para satisfazer as necessidades dos nossos graduados, para prepará-los para os desafios futuros.

O volume de informação que os engenheiros são chamados a saber aumenta quase diariamente. Até ao início da década de 1980, por exemplo, a maioria dos graduados em engenharia química iam trabalhar na indústria química ou petrolífera. Agora, não encontrando emprego, integram-se nos ramos não tradicionais como a biotecnologia, a ciência ambiental, a engenharia da saúde e segurança, a tecnologia de fabricação de semicondutores e até na área financeira. Para poderem ser eficazes em todo este amplo espectro de possibilidades de emprego, os novos graduados devem também entender conceitos de biologia, de física e até de política fiscal.

Muitos dos que vão trabalhar para empresas que operam em mercados internacionais, também precisam de estar familiarizados com a cultura e línguas estrangeiras. Por isso, é cada vez mais difícil dimensionar um curso de engenharia. Sugere-se mesmo ser uma solução abandonar o modelo de currículo tradicional e, em vez disso, instituir-se diferentes áreas de especialização. Aos novos graduados exige-se um amplo conhecimento, para além da especialização pela qual optaram. Por isso, o foco da educação em engenharia deve-se afastar do modelo convencional.

Atualmente há ainda a acrescentar a dificuldade de manter atuais os laboratórios onde se ministram as aulas práticas, face à diminuição do investimento que os governos têm imposto. Neste campo, a evolução dos sistemas virtuais pode ser uma solução para algumas das áreas do ensino laboratorial.

Utilizando pouco mais do que um computador, um smartphone e dois controlos, os estudantes podem apreender assim novas práticas e processos de trabalho, sem que tenham de lidar fisicamente com os materiais. Este sistema permite fazê-lo até com mais segurança, num ambiente de realidade virtual.

Este tipo de formação apresenta ainda o aliciante extra de poder oferecer vários graus de dificuldade, ajudando assim a manter o aluno permanentemente motivado na sua progressão, desafiando-o a evoluir, além de eliminar qualquer barreira linguística que possa existir, uma vez que pode estar disponível em várias línguas. Além disso, esta tecnologia permite a um aluno fazer trabalhos virtualmente em qualquer lugar do planeta, trocando experiências com colegas de outras instituições.

De facto, as mudanças tecnológicas, sociais e culturais que temos vindo a acompanhar, exigem que se promovam mudanças nos conteúdos e na forma como os conceitos são transmitidos, permitindo formar profissionais de engenharia competentes e integrados no mundo do trabalho, cada vez mais exigente.

One Comment

  1. Zé da Gândara says:

    Mas neste país são lá precisos engenheiros?

    Está o autor a esquecer-se de falar de uma fauna que ainda está em actividade (os engenheiros do 25 de Abril, e.g. aprendizes de serralheiros convertidos por decreto em engenheiros mecânicos / de materiais) que usurpou o poder ao longo de décadas na pouca actividade de cariz industrial que por cá ainda vai sobrevivendo) que fez sucessivamente a cama a todos os miúdos que lhe foram aparecendo pela frente, com recurso à técnica da casca da banana… Esses foram os primeiros coveiros da engenharia em PT… Um curso de Engenharia deveria ter uma estrutura e modo de ingresso no mercado de trabalhp semelhante a um curso de Medicina (essencialmente prático a partir de certo momento e devidamente contextualizado)… É por aqui que começa o caldo a entornar-se porque há achados arquelogicos dessa fauna dos engenheiros do 25 de Aril que castraram todos os que lhe apareceram pela frente…

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