Opinião: Duas vidas adiadas, entre muitas outras…

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Gil Patrão

Num dos pavorosos incêndios florestais que tudo levaram à sua frente no último ano, desde a primavera ao tórrido verão e a um outono tão quente como não há memória, a casa da Marion ardeu, algures no centro do país! Há dias, um canal de televisão entrevistou Marion e o seu companheiro, aparentemente de idade avançada, e a viverem numa frágil tenda emprestada, sem isolamento contra calor e frio, ao lado dos destroços de uma pequena e humilde casa destelhada.

Delicadamente, Marion exprimiu a tristeza e o desencanto sentidos por a reconstrução da sua casa ainda não ter começado, e duvidando que as obras começassem até ao final do ano passado. E o seu companheiro acrescentou, em tom de lamento, que, como sempre tinham feito durante as suas vidas, deviam ter posto mãos à obra, e não terem ficado à espera da ajuda dos que tudo lhes prometeram, tal como terão prometido a muitos outros que, de repente, e como aconteceu com eles, perderam tudo… Foram palavras vãs, aquelas em que ambos acreditaram, como têm sido enganosas as palavras que, tantas vezes, ouvimos da boca de muitos dos que nos governam.

Entende-se a desilusão de quem acreditou na ajuda prometida por quem representava o nosso Governo. Marion e o companheiro escolheram Portugal para viver a fase final das suas vidas, seduzidos por um país belo e acolhedor, onde o sol brilha quase todo o ano, e que é habitado por um povo solidário, cordato, e tão cordial que não tem igual. Mas quem aqui vive poderá sofrer desencantos estrondosos, que causarão desolações colossais, se os governos não acautelarem situações que serão cada vez mais frequentes no futuro, face às alterações climáticas em curso.

Em democracia, por vezes somos governados por políticos que parecem inconsequentes, e que, como o companheiro de Marion frisou, dizem palavras bonitas, mas não cumprem o que prometem! Na antevéspera do Natal senti, naquelas palavras tão educadas, o desalento de quem acreditou em quem representava o Governo, o que me levou a escrever estas palavras, tão vãs como outras, se o nosso povo não lutar para mudar a realidade triste em que Portugal ainda vive. Mas, se pudessem, a quase totalidade dos portugueses diriam agora a Marion e ao companheiro, que a sua angústia é a nossa tristeza, e que o desalento em que vivem, o sentimos como nosso.

Não conheço Marion, mas julgo que terá vivido bem entre nós, num qualquer recanto bendito da região Centro, e que ainda hoje aí sobreviverá, embora em condições lamentáveis! Num país em que “episódios de uma telenovela raríssima” vão expondo o que não é raro ver por aqui: Como alguns afamados políticos, e certa gente ilustre, transfiguram um país de sonho numa desilusão! E quando penso nos que, na Revolução de Abril, em vez de gentis cravos carmins quiseram usar veras balas, para libertarem um tão sofrido povo, agradeço a este nunca o ter consentido, por o valor de uma só vida superar o tanto que perdemos, por termos sempre tão brandos costumes!

Mas, só nos incêndios florestais do ano passado, morreram cento e dezasseis pessoas inocentes! E ainda hoje há famílias com filhos pequenos que, por as suas casas terem então ardido também, continuam alojados em pardieiros indignos de albergar gente! E muitas, por receio ou vergonha, nem ousam mostrar as condições deploráveis em que o Governo permite que vão sobrevivendo! Marion, não esperem demais de Portugal, embora julgue que, “um dia”, terão a vossa casa reconstruída. Oxalá o mesmo aconteça também, a todos os outros que “ficaram sem vintém”…

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