Opinião: Coimbra capital da saúde e do conhecimento

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Coimbra é a capital da saúde e do conhecimento. Do conhecimento é, com toda a certeza, desde logo pela sua história de matriz intelectual do País por onde passaram e se formaram destacadas personalidades da cultura, da ciência e da política, ao longo de mais de sete séculos.

Um património material e imaterial único, invejável, muito além do humorismo circundante, de nos conhecermos todos uns aos outros, a pretender realçar o que têm sido as últimas décadas de desenvolvimento em Coimbra e no País, num paralelismo irritante, provocador, a pretender fazer acordar a “bela” como se alguma vez ela tivesse adormecido.

A Coimbra capital da saúde, que outrora iluminava uma região e um País, essa sim, está adormecer. Não por falta de bons e competentes profissionais da saúde e de serviços de excelência, mas pela ausência de um poder gestionário local, na saúde, estratega, iluminado, de horizonte, que vá para além do simplismo aditivo, centralizador de instituições da saúde, ao sabor de uma visão muito personalizada, porventura justificada nos condicionalismos financeiros, em prejuízo da qualidade e diversificação dos serviços a prestar ao cidadão e em prejuízo de Coimbra capital da saúde, de uma Coimbra polo de referência de uma região.

Confesso humildemente que, quando politicamente activo, me convenceram das vantagens em criar um Centro Hospitalar Universitário em Coimbra. Uma única administração para o HUC e para o CHC, a gerir sinergias, a maximizar a qualidade do serviço ao utente, a permitir melhorias de financiamento e a minimizar o desperdício. Na altura duvidei muito da bondade e intenção, mas não sendo profissional da saúde admiti a mudança com a ausência de tomada de posição política pública. Hoje estou muito arrependido por ter ficado silenciado.

Bem conhecemos a história dos hospitais da Universidade de Coimbra e dos Covões (principal unidade do CHC). Quando deputado, passei pela Comissão de Saúde e constatei, em diversos governos, que diferentes ministros da saúde, curiosamente, coincidiam na implícita crítica à existência de dois “hospitais centrais” em Coimbra. Porém, em muitos anos, nunca ouvi dos responsáveis políticos, críticas à qualidade do serviço ao utente prestado em ambos os hospitais, apenas o afloramento da inelasticidade dos recursos financeiros no sector da saúde.

E de facto muitos dos problemas da saúde têm por base a falta de financiamento adequado e sustentável ao SNS, que bem mereceria um debate aberto mas sem dogmas.

Decorrido o tempo suficiente de vivência do Centro Hospitalar Universitário, seria bom, indispensável, que alguém da saúde com responsabilidade apresentasse os resultados quantitativos e qualitativos comparativos do resultado da tal mudança como visão dos tais ganhos.

Vamos ouvindo e os factos que vamos conhecendo ou vivendo contrariam a motivação subjacente da constituição do Centro Hospitalar Universitário, nomeadamente teria resultado na degradação dos serviços de saúde, tanto no HUC como no CHC, e do ponto de vista financeiro o défice mensal teria sido muito agravado relativamente aos défices anteriores em cada uma das unidades hospitalares.

Não há fumo sem fogo e, na ausência de informação detalhada, seria aconselhável uma ponderação política sobre novas iniciativas centralizadoras relativamente ao Hospital de Cantanhede e ao Centro de Reabilitação da Tocha, uma ponderação que evite a acumulação dos erros, que se traduzem por perdas de qualidade de serviço a prestar e de agravamento financeiro. Não poderemos esquecer a velha máxima “ grandes naus grandes tormentas”.

O Centro Hospitalar Universitário tem visivelmente muitos e diversificados constrangimentos, até em estacionamento, seria importante para Coimbra, que em vez da ambição de um crescimento pela simples via da adição, olhassem mais para o interior, para a conservação e renovação dos equipamentos, e sobretudo que impedissem a perda de todo um know-how humano, que um dia nos fez sonhar com Coimbra capital da saúde e do conhecimento.

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