Opinião: Modos de vida

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Aires Antunes Diniz

Portugal, dizem-me, não existiria se a Igreja Católica não tivesse organizado a sua vida social e económica. Dizem-me até que foi uma sorte, perante o não te rales do poder real, que esta tivesse organizado as Constituições Sinodais, algo que conheço pois estudei as da Guarda, em particular as de 1759. Foi este o ano em que terminou um período de enorme importância da Igreja por ser também o ano de uma enorme perda de poder temporal pelos jesuítas em Portugal.

Era a integração nesta ordem religiosa que alguns celebravam em 23 de novembro de 1914, quando informavam que “o grande orador sagrado D. António Aires Gouveia é sagrado Bispo de Betsaida pelo cardeal D. Américo, acolitado pelos bispos de Coimbra e Bragança. Mais tarde, o famoso orador foi elevado a Arcebispo da Calcedónia” 1 . Trata-se na verdade da descrição de um processo paralelo de promoção de alguém dentro da hierarquia da Igreja Católica num tempo em que esta perdia poder.

Não é por isso inocente que três anos depois havia a aparição de Nossa Senhora em Fátima, algo que o senhor Licínio Lima considera o primeiro passo para a derrota da Primeira República, que tinha feito a lei de Separação da Igreja do Estado, libertando-a da má companhia de muitos falsos católicos, que a usavam para se apoderarem das alavancas do poder.

Contudo, o livro que escreveu esquece que o pároco de Fátima não acreditou nas aparições, sendo o pároco do Olival quem nelas acreditou e fez andar o processo. Refere de raspão José Maria Félix e faria bem em ler os trabalhos que este publicou. Limitou-se a falar de Manuel Nunes Formigão e do seu papel da construção de Fátima como mito agora enraizado como verdade indiscutível. Pouco explorou o papel de Nunes Formigão na inspiração da elaboração por José Ferreira Thedim da estátua de Nossa Senhora de Fátima, que agora se encontra na Capelinha das Aparições. Diz-me a Wikipédia.

Nem sequer reparou que Formigão tentou e conseguiu que Fátima se tornasse num grande destino turístico que é agora. E esse é o verdadeiro milagre de Fátima.

Contudo, o grande objetivo dos construtores de Fátima como Altar do Mundo era quebrar o anticlericalismo, que se tinha desenvolvido durante o século XIX, sendo o Estado Novo, um instrumento que usou nesse sentido, mas quando Cecília Supico pediu em 1967 a Paulo VI para rezar pelos militares combatentes nas Colónias, tendo-o contado ao Ditador, ouviu: “Ai a menina pediu-lhe isso!? – perguntou-me o Dr. Salazar. Depois, encolheu os ombros, e disse ao Franco Nogueira: – Bom! Mal não lhes deve fazer!?” (In Sílvia Espírito Santo – Cecília Supico Pinto. O Rosto do Movimento Nacional Feminino. A Esfera dos Livros, Lisboa, 2008, 2008, pág. 58).

Estamos assim num universo de mentira organizada, onde as portuguesíssimas tradições marianas servem tanto os objetivos do poder político como as necessidades de desenvolver uma região desfavorecida, como era Fátima, no concelho de Ourém.

1 In O Tripeiro, nov.1964, efeméride

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