Opinião: E o carteiro que não chega…

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Francisco Queirós

É tempo de festas. Na caixa do correio lá aparece um ou outro postal ou carta de familiares. Na caixa do correio, agora há sobretudo folhetos dos hipermercados, uma ou outra conta de serviços públicos, correspondência institucional e pouco mais. Os tempos são outros. As comunicações usam outros suportes. As mensagens portadoras de votos de boas festas e de próspero ano novo seguem por “sms” ou através das redes sociais.

Mas ainda há correios em Portugal. E há carteiros. Não como nos habituámos. Guardo boas memórias de um carteiro. O senhor José foi o carteiro da minha rua durante muitos anos. Era ele que todos os dias colocava o “República” e outra correspondência na caixa do correio. Por vezes, ou fosse muita a correspondência ou houvesse algo especial, subia ao segundo andar e entregava o correio em mão à minha mãe. Um dia, há quase meio século, era eu criança, depois de abrirmos a porta, pediu para falar com o meu pai. Lá estiveram na sala em conversa sussurrada. Só anos mais tarde percebi porque passara o meu pai a insistir, após aquela manhã de sábado, que o que se come em casa não se conta na rua.

O senhor José tinha vindo avisar que o agente da PIDE que habitava no rés-do-chão vasculhava diariamente o correio que ia lá para casa. Eu e os meus irmãos ficámos proibidos de levar lá para casa os restantes miúdos do prédio, incluídos obviamente os filhos do agente, com o pretexto de que a minha mãe não suportava tanto barulho. Nunca mais me esqueci do senhor José, carteiro. Hoje não sei quem é o carteiro da minha rua. Aliás, já por lá vi vários.

Os CTT já não são o que eram, de facto. O serviço público que se estendia a todo o território e que contribuiu ao longo de tempos e tempos para a aproximação de pessoas e para a coesão nacional é agora uma empresa privada a saque. Desde o primeiro dia da privatização que se percepciona uma única estratégia, a de sugar tudo, até que nada sobre. Neste momento anunciam o despedimento de mil trabalhadores. O banco que criaram, segundo as notícias das últimas semanas, tem servido muito mal os depositantes.

O património vai-se. A sede histórica da empresa foi agora vendida por 25 milhões de euros. Por todo o lado encerram lojas e balcões. O serviço prestado não é o que era. O correio chega tarde, ou não chega e é caro. Não é hoje necessário este serviço? Claro que é! De modo diferente do que já foi. Mas é! Na verdade, o papel estratégico de serviço público às populações não é compatível com o objectivo empresarial único da actual empresa, lucrar, lucrar cada vez mais, a qualquer custo para o público.

É tempo de festas! E de recuperar a qualidade dos serviços públicos. Trate o governo com urgência de reverter os CTT para o Estado, antes que se arrase por completo este serviço essencial!

One Comment

  1. É isso mesmo!

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