Opinião: À Mesa com Portugal

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Olga Cavaleiro

Não sei se é das noites frias e de céu estrelado, se do cheiro a lareira que sai de cada uma das chaminés, se da ansiedade em rever quem está longe, Dezembro cheira a Natal e o Natal sabe a mesa farta de sabores, de gargalhadas, de estórias que se recordam pela noite dentro, a uma alegria que ainda que seja tristeza disfarçada de sorriso é obrigatória numa noite que tem de ser FELIZ. Nem sempre vivido por todos da mesma maneira, o Natal por todos é sentido, mesmo por aqueles que dizem não gostar do Natal. E seria o Natal o mesmo se nada tivéssemos sobre a mesa?

Seria a mesma euforia, a mesma alegria, a mesma satisfação se não tivéssemos o bacalhau com as couves bem regadas do azeite novo, as azeitonas já preparadas desde a última colheita, a broa de milho, os bolos de bacalhau, o polvo, os coscorões, as rabanadas, as filhós, os beilhós, os sonhos, o arroz doce, o leite de creme, as broinhas de abóbora, as lampreias de ovos, o vinho do Porto ou a geropiga a acompanhar as conversas que se prolongam numa noite que não queremos que tenha fim? Podemos saborear tudo isto fora da época natalícia, mas não é a mesma coisa.

Saberia o Natal ao mesmo se não tivéssemos a azáfama de uma cozinha que cheira a mãe, a avó, a tia, às matriarcas que coordenam os trabalhos da cozinha e que nos deixam rapar o tacho do arroz doce ou que nos deixam roubar um beilhós antecipando, assim, um pouco o sabor de uma noite especial? Quem pode negar o amor que está nessa tarde de preparação da mesa de Natal?

O Natal é um todo de sabores. Do doce ao salgado. Do doce das lágrimas de alegria, pois doce é a presença de quem nos acompanha. Do salgado das lágrimas que ardem na boca pela ausência de quem não está connosco. Natal é a mistura do doce e do salgado na nossa boca e no nosso coração dando azo à descoberta de novas atitudes perante a vida.

Entre o deve e o haver, o Natal transporta-nos para a dádiva da vida, para a gratidão da família, para a beleza dos laços que, por vezes, são mais fortes que os de sangue. Com lágrimas doces ou salgadas presas na garganta, todos sentimos o Natal na abundância. Do simples bacalhau cozido com as couves às requintadas sobremesas de Natal, não esquecemos nunca que a abundância não está só na mesa, mas mora sobretudo no nosso coração.

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