Opinião: Queremos água!

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Francisco Queirós

A água é um bem essencial à vida. No entanto, há ainda quem não entenda, ou não queira entender, a importância da luta contra a sua privatização. Haverá ainda quem não entenda a necessidade de se defender a água enquanto bem público, acessível a todos e não à mercê de negócios em que se movem grandes multinacionais. A água é já um dos maiores negócios a nível mundial.

Todo o território continental está em situação de seca severa ou extrema desde o final de Outubro, atingindo-se 95% no nível máximo a 15 de Novembro. Os canais de televisão e a comunicação social em geral dão conta da gravidade da situação que muitos portugueses, agricultores, produtores pecuários e consumidores, sentem já de facto. A barragem de Fagilde, em Mangualde, está a ser abastecida diariamente por algumas dezenas de camiões cisternas.

Segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera, 94,4% do nosso território encontra-se em seca extrema, o nível mais elevado, e os restantes 5,6% do território continental estão sob seca severa. Há pois já elevados prejuízos nos sectores agrícola e pecuário.

A ausência de precipitação e a falta de água para o próprio abastecimento das populações colocam na ordem do dia o valor da água. Diz o povo e com sabedoria que só nos lembramos de Santa Bárbara quando troveja. Também assim, estaremos agora a valorizar este bem fundamental como habitualmente não o fazemos. Muitos portugueses estar-se-ão a confrontar pela primeira vez com a ameaça de que um dia das torneiras de suas casas não pingue gota de água. E se tal acontecesse? E se tal acontecer?

Não bastará esperar que chova, enquanto uns rezam ou promovem procissões. É o momento para retirar ensinamentos relativamente ao ordenamento do território, a extensão das áreas de regadio, a gestão dos cursos de água, o seu controlo. E claro, desde já, exigir medidas imediatas em socorro das nossas produções. A gravidade da situação impõe medidas excepcionais como a antecipação de fundos europeus, quer no quadro da Política Agrícola Comum, quer recorrendo ao Fundo de Solidariedade da União Europeia.

A água que sirva todos! Enquanto direito fundamental e essencial à própria vida. Como escreveu Saramago, “Privatize-se tudo /A mim parece-me bem.(…) / privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu,/ privatize-se a água e o ar,/ privatize-se a justiça e a lei,/ privatize-se a nuvem que passa,/ privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno/ e de olhos abertos./ E finalmente, para florão e remate de tanto privatizar,/privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez/ a exploração deles a empresas privadas,/ mediante concurso internacional. / Aí se encontra a salvação do mundo …/ E, já agora, privatize-se também/ a puta que os pariu a todos.” E que chova. Queremos água!

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